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A prematura redução de juros do Copom



A decisão do Copom de reduzir a Selic para 14,25% a.a. em junho de 2026 revela uma tensão fundamental entre dois objetivos que o banco central persegue simultaneamente: controlar a inflação e suavizar as flutuações da economia. Neste momento, essa redução parece prematura.


A inflação cheia permanece em 5,2% para 2026, significativamente acima da meta de 3,0%. As expectativas do mercado, medidas pelo Boletim Focus, apontam para 5,30% no mesmo período. Essa divergência entre a projeção do Copom (que vê convergência para 3,7% no final de 2027) e as expectativas do mercado (4,10% para 2027) indica que investidores e empresas não acreditam plenamente na trajetória de queda da inflação. Expectativas desancoradas funcionam como profecia autorrealizável. Empresas antecipam inflação e aumentam preços; trabalhadores exigem reajustes salariais; o resultado é a inflação que ambos temiam.


O Comunicado reconhece que o hiato do produto permanece positivo, ou seja, a economia cresce acima de seu potencial. Nessa situação, reduzir juros alimenta ainda mais a demanda, pressionando preços. A resiliência do mercado de trabalho mencionada no documento sugere que o desemprego não caiu o suficiente para justificar essa flexibilização. Setores menos produtivos continuam absorvendo mão de obra, postergando ajustes estruturais necessários.


A questão fiscal agrava o cenário. O Copom menciona acompanhar como a política fiscal impacta a política monetária. Uma dívida pública em trajetória insustentável força o banco central a manter juros elevados para tentar preservar a confiança dos investidores. Reduzir juros antes de sinais claros de consolidação fiscal corre o risco de o mercado interpretar essa redução como concessão à pressão política, enfraquecendo a credibilidade da instituição. Isso pode amplificar a depreciação do real, realimentando inflação de importados.


O câmbio em trajetória de enfraquecimento, combinado com inflação elevada e juros em queda, cria um círculo vicioso: câmbio fraco alimenta inflação de bens importados, inflação alta exige juros altos para conter expectativas, mas juros altos atraem capital de curto prazo que se retira quando o ciclo se inverte.


A redução de juros deveria estar condicionada a sinais mais claros de desancoragem das expectativas e consolidação fiscal. Prosseguir com o ciclo de redução antes dessas condições estarem satisfeitas corre o risco de reiniciar ciclos de expansão de crédito improdutivo, prolongando a instabilidade econômica e enfraquecendo a âncora nominal em momento de elevada incerteza global.



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