top of page

As três faces do poder e o erro de leitura do Ocidente

há 5 horas
4 min de leitura

O Ocidente atravessa uma conjuntura singular, na qual os três centros decisórios do ordenamento internacional se encontram sob a condução de homens cuja essência é recorrentemente mal apreendida. Esse erro de apreciação tem custo estratégico mensurável, e ele se materializa em fragilidade de alianças, em acordos mal calibrados e em uma consciência de ameaça que dorme justamente no momento em que deveria despertar. Compreender, com rigor analítico, quem são Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin não constitui exercício biográfico. É o fundamento sobre o qual se erige qualquer política de defesa, de comércio e de alianças que mereça o nome.


Os três homens partilham um traço comum: uma racionalidade própria, coerente com a identidade que cada um construiu, mas que não coincide com a racionalidade liberal que o Ocidente tende a projetar sobre os demais atores. Trump lê o mundo como um negócio. Xi lê o mundo como uma disputa civilizacional de longo prazo. Putin lê o mundo como uma guerra de restauração imperial. Quando o Ocidente lê o primeiro como caos, o segundo como sócio comercial e o terceiro como parceiro negociável, comete o mesmo equívoco em três direções diferentes: projeta sobre o adversário motivações que ele não possui. A confusão entre a natureza do ator e a natureza do sistema em que ele opera é a raiz recorrente dos desastres estratégicos.


Trump é, em essência, um transacional puro. Costuma-se vê-lo ora como transformador notável de instituições, ora como destruidor irracional da ordem liberal, e ambas as leituras erram o alvo. Trata-se de um empreendedor imobiliário de Nova York que levou à Casa Branca a lógica do contrato comercial, na qual tudo é negociável, nenhum compromisso é permanente e a reputação vale mais do que a letra do tratado. Sua segunda gestão, iniciada em 2025, acentuou esse perfil. As tarifas de até 145% impostas sobre a China, a pressão direta sobre os aliados europeus no sentido de elevarem o gasto em defesa e a tentativa de reaproximação com Moscou, conduzida por gestos pessoais mais do que por canais burocráticos, revelam um dirigente que trata a aliança como balanço contábil e não como pacto de valores.


O risco do Ocidente, nesse episódio, é duplo. Primeiro, confundir volatilidade tática com abandono permanente do compromisso transatlântico, o que induziria os europeus a uma fatalidade excessiva e a uma militarização unilateral descoordenada. Segundo, supor que o estilo pessoal substitui a estrutura. Trump negocia consigo mesmo, mas a máquina de inteligência, de economia e de poder de fogo dos Estados Unidos permanece, e permanece organizada pela Constituição, pelo Congresso e por uma burocracia que ele não governa à maneira de um autocrata. Tratar o presidente e o país como a mesma coisa produz, indistintamente, sobrevalorização ou subestimação da variável americana, e ambas atacam a precisão do julgamento estratégico.


Xi Jinping é, entre os três, o mais sistemático. Formado na cultura do Partido Comunista, herda de Mao e da leitura leninista do poder a noção de que o político e o econômico são faces de uma mesma obra de conquista, e acrescenta a esse legado um ressentimento histórico calculado, o chamado século da humilhação, como motor ideológico de projeção global. Não é um burocrata parado. Removeu contrapesos internos, eliminou limites de mandato, colocou o partido no comando das grandes empresas e construiu um sistema no qual o poder militar, tecnológico e informacional converge para um único objetivo: subtrair aos Estados Unidos a hegemonia técnica e apresentar Pequim como arquitetura alternativa do mundo. A cúpula de maio de 2026, em Pequim, com suas concessões protocolares a Trump, e o acolhimento de Putin dias depois, acompanhado de declaração conjunta condenando a política americana e denunciando um suposto retorno à lei da selva, revelam o plano com clareza suficiente. Usa-se a economia como anestesia diplomática enquanto se constrói, com a Rússia e o mundo ex-soviético, um eixo alternativo ao Ocidente.


O erro do Ocidente, aqui, é o mais perigoso por ser o mais sedutor. Acreditar que Xi é um pragmático de agenda econômica, com quem bastam bons negócios, é ignorar que ele considera Taiwan uma questão de sobrevivência e que encara todo acordo como manobra tática dentro de uma estratégia de alcance muito mais amplo. A paz comercial, nessa lógica, é somente a pausa entre dois estágios de uma mesma operação de deslocamento do centro de gravidade do poder.


Putin é o mais transparente dos três e, por essa razão mesmo, o mais mal lido. É um revisionista de projeto, não de circunstância. Ex-oficial da KGB, escreveu desde o discurso de Munique de 2007 a crítica da ordem pós Guerra Fria como humilhação infligida à Rússia. A invasão da Ucrânia não é episódio contingente. É o capítulo mais recente de uma estratégia de recomposição de esfera de influência que já passou pela Geórgia, pela Crimeia e pela Síria por meio de uma sequência de testes, cada qual seguido da constatação de que o Ocidente vacilava. Ao aproximar Trump de Putin em nome de uma paz rápida, o Ocidente arrisca repetir a leitura equivocada de 2008 e de 2014, na qual se supunha que concessões produzem satisfação. As informações que circularam em julho de 2026, no sentido de que Putin rejeita negociar um cessar-fogo e prepara nova intensificação da guerra, possivelmente com operações além da Ucrânia, confirmam essa trajetória. Cada cessar-fogo, em sua ótica, é uma pausa para rearmamento. Cada acordo, uma espera. O perigo de um entendimento mal calibrado aqui é que a Europa aceite, em nome da estabilidade, uma Ucrânia mutilada, o que não encerraria o conflito, mas apenas o reprogramaria em vantagem russa, transferindo para o futuro um custo de sangue e de território maior.


As consequências práticas dessa tríplice leitura equivocada já se fazem visíveis. Fragiliza-se a OTAN pela dúvida sobre a garantia americana, adormece-se a consciência de ameaça a respeito da China em nome de negócios lucrativos, e consolida-se, no eixo Pequim, Moscou e Teerã, um bloco revisionista que compartilha propósito explícito: terminar a ordem dominada pelo Ocidente. Contra esse diagnóstico, a salvaguarda é simples, embora custosa em rigor analítico. Consiste em olhar para os três líderes não como gostaríamos que fossem, mas como eles mesmos se definem e agem. É essa disciplina que separa a política externa sofisticada daquela que, ao ser surpreendida, paga em território, em liberdade e em vidas.



Comentários


bottom of page