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Brasil planeja 1ª emissão de títulos em yuan, acenando à China e provocando os Estados Unidos

Iniciativa ocorre em meio a tarifas americanas sobre produtos brasileiros e sinaliza opção deliberada pela desdolarização num momento geopoliticamente delicado




O Brasil planeja realizar sua primeira emissão de títulos soberanos em yuan chinês, os chamados “panda bonds”, com anúncio previsto para a viagem do ministro da Fazenda, Dario Durigan, a Pequim e Xangai entre os dias 24 e 26 de junho. O valor a ser captado ainda não foi divulgado.


A operação é apresentada pelo governo como diversificação de fontes de financiamento, mas seu significado geopolítico vai muito além da aritmética financeira. O Brasil está prestes a emitir dívida soberana na moeda de um país governado por um regime de partido único, marcado por forte intervenção estatal na economia e um sistema financeiro diretamente controlado pelo poder central. Trata-se de um parceiro comercial apontado pelo governo americano como financiador do Irã durante a guerra que manteve o Estreito de Ormuz fechado por mais de três meses. A China ordenou que suas empresas ignorassem as sanções americanas ao petróleo iraniano, comprou 90% do produto sancionado de Teerã e recusou participar de qualquer esforço para pressionar o país a negociar.


O momento da emissão é inoportuno. Os Estados Unidos acabam de propor tarifas próximas a 40% sobre produtos brasileiros, a investigação comercial da Seção 301 identificou práticas desleais do governo nacional, e o presidente da República passou as últimas semanas atacando o secretário de Estado Marco Rubio publicamente, além de recusar cooperação com Washington na classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Emitir esses “panda bonds” agora ultrapassa a esfera financeira. É um sinal enviado deliberadamente a Washington de que o Brasil está disposto a se aproximar da China como retaliação, exatamente no período de maior tensão com os americanos em décadas.


Sob a ótica puramente financeira, os “panda bonds” possuem aparente atratividade, com taxas de juros historicamente entre 1,98% e 4,5%, muito abaixo dos níveis internos. Essa equação, contudo, ignora o custo geopolítico e o risco institucional da operação. A China é a segunda maior credora soberana do mundo, mas também uma economia com dívida pública e privada em níveis que analistas classificam há anos como um risco sistêmico. Seus dados econômicos são filtrados pelo Estado, sem transparência para avaliação independente, e seu sistema jurídico não oferece as garantias exigidas pelos mercados ocidentais. O yuan não é uma moeda de reserva global exatamente porque o governo chinês controla o câmbio e a conta de capitais, o que restringe estruturalmente a liquidez desse mercado.


Além dos riscos financeiros, o Fórum de Cooperação Financeira Brasil-China em Pequim no dia 9 de junho, com a presença de secretários do Ministério da Fazenda e diretores do BNDES, somado à chegada do presidente do Banco Central a Xangai nesta segunda-feira, compõem um movimento coordenado de aproximação financeira com o país asiático. Isso acontece simultaneamente à deterioração das relações com os Estados Unidos. O governo brasileiro escolhe, em um momento de máxima pressão americana, alinhar-se exatamente à nação que Washington considera sua maior rival. O custo dessa escolha não será medido em pontos-base de juros, mas em anos de distanciamento do principal mercado, investidor e parceiro de segurança do hemisfério ocidental.



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