Com Flávio Bolsonaro na frente, Goldman Sachs revisa dólar para R$ 4,70 em três meses e vê real mais forte
Banco baixa as estimativas anteriores e condiciona o avanço adicional da moeda brasileira a anúncios fiscais concretos

O Goldman Sachs reviu para baixo, de forma expressiva, suas projeções para o dólar frente ao real e passou a trabalhar com um ritmo mais veloz de valorização da moeda brasileira nos próximos meses. Para o banco, o salto de mais de 4% do real no primeiro pregão depois do primeiro turno tem respaldo tanto na mudança de postura dos investidores quanto no padrão visto em eleições anteriores. Como referência, a instituição lembra que, em 2018, o dólar recuou cerca de 10% em torno da primeira rodada de votação, e avalia que o episódio ajuda a explicar por que o movimento atual pode não ter se esgotado.
O pano de fundo é o resultado de 4 de outubro, em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) terminou cerca de dois pontos à frente do presidente Lula (PT), com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. O mercado enxerga em Flávio Bolsonaro um nome mais inclinado a priorizar o ajuste das contas públicas, enquanto Lula convive com a desconfiança de parte relevante dos investidores.
Nas novas projeções, o banco passou a estimar o dólar a R$ 4,70 em três meses, ante os R$ 5,20 anteriores, a R$ 4,75 em seis meses, ante R$ 5,10, e a R$ 4,80 em doze meses, ante R$ 5,00. A concentração da queda no curto prazo, explica a instituição, decorre da expectativa de que o período seguinte à eleição seja dominado por discussões sobre a equipe econômica, a política fiscal e as condições de governabilidade. Nessa leitura, o foco dos investidores deve migrar rapidamente do desfecho eleitoral para decisões práticas de política econômica, que serão necessárias para sustentar uma nova rodada de ganhos do real.
Os analistas atribuem boa parte do otimismo ao desempenho da direita e da centro-direita nas eleições legislativas e estaduais. Segundo eles, a composição do Congresso e dos governos estaduais sugere um ambiente de governabilidade mais favorável para um eventual governo Flávio Bolsonaro, em comparação com o enfrentado pela gestão de Jair Bolsonaro, e o mercado passou a dar mais peso a uma agenda de ajuste fiscal, o que ajuda a explicar a reação dos ativos brasileiros. Uma cotação perto de R$ 4,80 seria compatível, na visão do banco, com o desaparecimento do resquício de prêmio de risco fiscal que se acumulou no câmbio desde a desvalorização de 2024.
A faixa entre R$ 4,50 e R$ 4,80 é tratada como plausível para um cenário eleitoral visto como favorável ao mercado e a uma política fiscal mais austera. O real poderia ir além disso se duas condições ocorressem ao mesmo tempo: uma consolidação fiscal suficiente para justificar prêmio positivo aos ativos brasileiros e um ambiente externo benigno para economias emergentes. Em outras palavras, o potencial da moeda não depende só do resultado das urnas, mas da execução das medidas anunciadas depois.
O Goldman Sachs não prevê, porém, uma trajetória em linha reta. A própria queda dos juros tende a reduzir, com o tempo, a atratividade do real, já que o avanço do ciclo de cortes da Selic estreita o diferencial de juros. Há ainda um fator sazonal: dezembro costuma trazer saídas relevantes de recursos do país, o que se tornaria obstáculo adicional caso as expectativas fiscais não se confirmem.
A revisão contrasta com o tom mais cauteloso do banco para outras moedas. O dólar global segue amparado por energia cara, pelo desempenho relativamente melhor da economia americana e pelos diferenciais de juros favoráveis aos Estados Unidos, mas o real figura entre as divisas que tiveram as revisões mais expressivas. A moeda americana encerrou a semana passada em R$ 4,985, queda de 4,43% no período, e a Selic permanece em 13,75% ao ano.





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