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Estreito de Ormuz permanece efetivamente fechado apesar do cessar-fogo

Fila de 3.200 embarcações e 800 petroleiros retidos no Golfo, nenhum tanque de petróleo arriscando a travessia, 20 mil marinheiros paralisados e seguros de guerra inviabilizando operações revelam abismo entre acordo no papel e realidade no mar



O cessar-fogo anunciado há três dias entre os Estados Unidos e o Irã, que tinha como condição central a reabertura "completa, imediata e segura" do Estreito de Ormuz, esbarra numa realidade que o chefe da Abu Dhabi National Oil Company, Sultan Al Jaber, resumiu sem rodeios em postagem no LinkedIn nesta quinta-feira: "O Estreito de Ormuz não está aberto. O acesso está sendo restringido, condicionado e controlado."


Os dados de rastreamento de embarcações confirmam o diagnóstico. O analista Matt Smith, da empresa de dados Kpler, foi direto: "Não estamos vendo nenhum, nenhum, absolutamente nenhum produto de petróleo passando por lá. Para todos os efeitos práticos, o estreito permanece fechado. E esse é o poder de barganha que o Irã tem." Na quinta-feira, apenas três embarcações cruzaram a passagem: duas de bandeira iraniana e um graneleiro. Na quarta-feira, o balanço não foi muito diferente, com um navio cingalês entrando e quatro graneleiros e um navio iraniano saindo, segundo a plataforma Windward AI.


Do lado de fora do gargalo, a espera se acumula. Uma fila de aproximadamente 3.200 embarcações, incluindo 800 petroleiros e navios de carga, aguarda a leste do estreito sem perspectiva clara de quando poderá avançar. Quase 20 mil marinheiros permanecem essencialmente paralisados no Golfo Pérsico, segundo a Organização Marítima Internacional. As poucas embarcações que tentam a passagem o fazem por um corredor próximo à Ilha de Larak, e algumas chegam a desligar seus sistemas de rastreamento durante o trânsito, num sinal de que nem mesmo as rotas autorizadas pelo regime iraniano oferecem garantia real de segurança.


O presidente Donald Trump já demonstrou impaciência com o descumprimento iraniano. "O Irã está fazendo um trabalho muito ruim, desonroso como alguns diriam, de permitir a passagem de petróleo pelo Estreito de Ormuz. Esse não é o acordo que fizemos!", publicou o presidente nesta quinta-feira. A declaração reconhece implicitamente que o que foi prometido e o que está sendo entregue pelo regime são coisas distintas.


A situação é agravada por dois fatores que independem da disposição política do regime. O primeiro é o risco de minas navais: ninguém sabe ao certo se o Estreito está minado, e essa incerteza por si só é suficiente para manter as seguradoras e os operadores afastados. O segundo é o custo dos seguros de risco de guerra, que permanecem disponíveis em alguns casos mas a prêmios muito mais altos e com restrições adicionais que inviabilizam economicamente a maioria das operações. O redirecionamento alternativo pelo leste de Omã e pela costa leste dos Emirados Árabes Unidos adiciona cerca de duas semanas às viagens e eleva os custos em aproximadamente 25%.


Para agravar o quadro, o Irã está exigindo o pagamento de um pedágio de US$ 1 por barril de petróleo a bordo, a ser pago em criptomoeda, segundo o Financial Times. A demanda transforma o Estreito de Ormuz, que o direito internacional reconhece como rota de passagem inocente para navios de todos os países, num pedágio privado controlado pelo regime.


Mesmo neste cenário, as negociações programadas para sábado no Paquistão entre altas lideranças americanas e iranianas seguem de pé. O vice-presidente JD Vance e o presidente Donald Trump sinalizaram que Israel reduzirá a intensidade dos ataques no Líbano para dar espaço ao cessar-fogo. O abismo entre o acordo firmado na terça-feira e a situação real no Estreito nesta quinta-feira define o que está em jogo nas conversas de sábado: ou o Irã entrega o que prometeu, ou o cessar-fogo se esvazia antes mesmo de completar uma semana.



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