Gerdau encerra produção de aço em Divinópolis, demite 280 e afeta cerca de mil trabalhadores
Fechamento da unidade mineira, atribuído à falta de minério a custo competitivo e ao avanço das importações, pode comprometer até 15% do ICMS do município e atingir mais de 2 mil empresas do entorno

A Gerdau anunciou nesta terça-feira (3) o encerramento da produção de aço em sua unidade de Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. A decisão afeta diretamente cerca de mil trabalhadores, entre empregados próprios e terceirizados, o equivalente a aproximadamente 7,4% dos empregos industriais do município. A empresa já demitiu 280 funcionários. A confirmação formal ocorreu na manhã de hoje, depois da comunicação aos empregados, e a prefeitura, que já acompanhava a possibilidade do fechamento e mantinha diálogo com a companhia, anunciou que vai lançar nesta semana um programa para mitigar os efeitos sobre trabalhadores e negócios.
O impacto vai além das vagas. Estudos da prefeitura indicam que a unidade pode representar até cerca de 15% dos repasses de ICMS recebidos por Divinópolis, o que ameaça as contas públicas do município. A preocupação alcança fornecedores, transportadores, comércio e serviços: nos bairros Interlagos e Porto Velho, no entorno da usina, existem mais de 2 mil empresas, 93% delas microempresas, segundo levantamento municipal.
Em nota, a Gerdau afirmou que a decisão “está relacionada, principalmente, à perda de competitividade da operação, em razão da ausência de fornecimento de minério de ferro a custos competitivos, fator que tem pressionado os custos de produção”. A companhia citou ainda o avanço das importações de aço e as condições desfavoráveis do mercado internacional, em particular para as exportações, e disse que a medida está alinhada à estratégia de “otimizar suas operações no Brasil, concentrando a produção de aço em ativos mais competitivos, eficientes e com maior nível tecnológico, de forma a assegurar a sustentabilidade de seus negócios no longo prazo”. A empresa informou que estuda alternativas de apoio profissional aos trabalhadores atingidos.
O fechamento chega num momento em que a indústria brasileira passa por forte retração. O PMI industrial da S&P Global, divulgado hoje, ficou em 46,1 pontos em outubro, abaixo da marca de 50, com a produção caindo pelo sexto mês seguido e os novos pedidos pelo 19º, e empresas citando vendas menores, falta de investimento, inflação e perturbações eleitorais. O Itaú estima que o PIB tenha recuado 0,1% no terceiro trimestre, cortou a projeção de crescimento de 2027 para 0,5% e prevê a Selic em 13,75% durante todo o próximo ano, com desemprego subindo a 6,5%.
O caso de Divinópolis expõe como a conjuntura econômica pesa sobre quem produz. A Selic em 13,75% ao ano encarece o capital e o crédito de qualquer investimento industrial, o dólar na faixa de R$ 5,50 eleva o custo de insumos, energia e bens de capital importados, e o Estado brasileiro, com déficit primário de aproximadamente R$ 94 bilhões em 2026 e dívida bruta em 82,9% do PIB, sustenta uma taxa de juros que inviabiliza a competição com concorrentes de países onde o dinheiro é mais barato. A isso se soma a promessa de uma carga tributária sobre o consumo que pode chegar perto de 30%, a alíquota de 11,3% de CBS proposta pelo Tribunal de Contas da União, e um governo que, em vez de apresentar um plano de ajuste, diz que o assunto não é prioridade.
Para Divinópolis, o desfecho é concreto: mil famílias sem a renda de uma das maiores usinas da região, comércio local sem clientes e uma prefeitura que perde arrecadação. É o retrato, em escala municipal, de uma indústria que encolhe há seis meses e de um país onde a decisão de produzir está cada vez mais difícil.





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