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Inadimplência bancária, spread e juros do crédito livre batem recordes em agosto, mostra Banco Central

há 12 horas
3 min de leitura

Taxa geral chega a 5%, entre pessoas físicas sobe a 6% e no crédito com recursos livres atinge 6,6% — todos os maiores níveis desde 2011



O Banco Central divulgou nesta terça-feira (29) um conjunto de indicadores que confirma a deterioração persistente da saúde financeira das famílias e empresas brasileiras, com múltiplos recordes negativos simultâneos na série histórica iniciada em março de 2011. Como os números tratam de conceitos distintos, vale explicar cada um antes de entrar nos detalhes: inadimplência mede o percentual de dívidas em atraso há mais de 90 dias; taxa de juros é o custo cobrado pelo crédito; spread bancário é a diferença entre o que o banco paga para captar dinheiro e o que cobra do cliente; e endividamento, medido por levantamentos como a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mede a proporção de famílias que têm qualquer tipo de dívida em aberto, atrasada ou não.


A taxa de inadimplência bancária geral — que soma pessoas físicas e empresas, considerando operações com atraso superior a 90 dias — subiu de 4,9% para 5% entre julho e agosto, o maior nível já registrado na série histórica. Entre pessoas físicas isoladamente, o indicador avançou de 5,8% para 6%, também recorde. Já entre empresas, a taxa ficou estável em 3,3%, mas segue no maior patamar desde outubro de 2017.


Dentro desse quadro, o segmento de recursos livres — crédito em que bancos e tomadores negociam livremente as condições, sem regras específicas do governo, como cartão de crédito, cheque especial e empréstimo pessoal — teve desempenho ainda pior: a inadimplência nessa modalidade chegou a 6,6% em agosto, superando o recorde anterior de 6,4%, registrado em julho.


No mesmo relatório, o Banco Central mostrou que as concessões de novos empréstimos no país recuaram 0,2% em agosto na comparação com julho, mesmo com o estoque total de crédito — soma de tudo que já foi emprestado e ainda está sendo pago — avançando 0,5% no período, para R$ 7,4 trilhões. As concessões de crédito livre caíram 0,4% no mês, enquanto as de crédito direcionado — modalidade sujeita a regras do governo, como financiamento imobiliário e rural, geralmente com juros mais baixos — subiram 1,8%.


Os juros cobrados no crédito livre fecharam agosto em 48,5% ao ano, alta de 0,8 ponto percentual sobre julho. Já no crédito direcionado, a taxa recuou 0,4 ponto, para 11,7% ao ano — uma diferença que ilustra por que o crédito livre costuma ser bem mais caro: ele concentra linhas de maior risco, como o rotativo do cartão, sem os subsídios ou garantias que sustentam o crédito direcionado.


O spread bancário no crédito livre — a margem que o banco embolsa entre captar e emprestar o dinheiro — subiu para 34,7 pontos percentuais, ante 33,8 pontos em julho, indicando que parte do aumento nos juros cobrados dos clientes não reflete apenas o custo de captação dos bancos, mas também ampliação da margem de lucro das instituições diante do maior risco de calote.


Os números do Banco Central conversam diretamente com pesquisa mais ampla realizada pela Confederação Nacional do Comércio, a PEIC, que mede o endividamento sob outra ótica, perguntando diretamente às famílias sobre sua situação financeira. Segundo o levantamento mais recente, com dados de julho, o percentual de famílias brasileiras com algum tipo de dívida em aberto — atrasada ou não — chegou a 82%, sexto recorde consecutivo da série, o equivalente a quase 60 milhões de famílias no país. Já a inadimplência medida pela mesma pesquisa, ou seja, o percentual de famílias com contas efetivamente atrasadas, ficou em 29,8% em julho. Entre os principais vilões do endividamento das famílias está o cartão de crédito, presente em 85,3% dos casos, puxado tanto pelo parcelamento de despesas do dia a dia quanto pelas taxas do crédito rotativo, que no cartão específico costumam superar 400% ao ano — patamar exorbitante, muito mais alto do que os 48,5% médios do crédito livre bancário, já que o rotativo do cartão é considerado a modalidade de crédito mais cara disponível ao consumidor brasileiro.


Em resumo, os dados divulgados nesta terça-feira mostram uma engrenagem que se retroalimenta: famílias cada vez mais endividadas recorrem a linhas de crédito livre mais caras para tentar equilibrar o orçamento, o que eleva o risco de calote percebido pelos bancos, que por sua vez sobem ainda mais os juros e ampliam suas margens.



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