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J.D. Vance chega ao Paquistão para negociações com o Irã

Vice-presidente americano lidera delegação em conversas que podem definir o futuro do cessar-fogo; Araghchi e Ghalibaf negociam pelo lado iraniano num encontro marcado pela desconfiança mútua



O vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, desembarcou em Islamabad nas primeiras horas deste sábado para liderar as negociações mais importantes desde o início da Operação Epic Fury, há 40 dias. Ao lado do enviado especial para o Oriente Médio Steve Witkoff e de Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, o vice-presidente Vance conduz a delegação americana que se sentará à mesa com representantes iranianos numa tentativa de transformar o cessar-fogo frágil de duas semanas em algo mais duradouro.


O lado iraniano será representado pelo ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi e pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf. A composição das delegações diz muito sobre a natureza das conversas: os Estados Unidos enviaram seu segundo escalão mais alto, sinalizando que há disposição real para um acordo; o Irã mandou seu chanceler e o parlamentar que a inteligência americana identificou como o principal interlocutor do regime nas negociações.


J.D. Vance partiu com uma mensagem clara para Teerã: "Se vão tentar nos enganar, vão descobrir que a equipe de negociação não é muito receptiva a isso", disse o vice-presidente antes de embarcar, acrescentando que ainda espera que as conversas sejam "positivas." A dualidade da declaração resume o momento: há otimismo suficiente para que a delegação americana faça o voo até Islamabad, mas sem ingenuidade sobre a disposição iraniana de cumprir o que promete.


O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, por sua vez, aceitou o cessar-fogo de duas semanas, mas deixou claro que "isso não significa a terminação da guerra" e que "nossas mãos permanecem no gatilho." A postura iraniana é reflete o padrão observado ao longo do conflito: negociar e ameaçar simultaneamente, usando o Estreito de Ormuz ainda praticamente fechado como principal alavanca de pressão. O regime também vinculou o sucesso das negociações à questão do Líbano, insistindo que os ataques israelenses ao Hezbollah devem cessar como parte de qualquer acordo mais amplo, posição que tanto Israel quanto os Estados Unidos rejeitam.


O Paquistão, que emerge como mediador central após ter contribuído para o cessar-fogo inicial, enfrenta sua própria crise de credibilidade. O ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, provocou reações intensas ao chamar as ações israelenses de "maldição para a humanidade" numa postagem no X que depois deletou, e ao dizer a críticos que "queimassem no inferno." Israel respondeu com dureza: autoridades israelenses classificaram as declarações como "ultrajantes" e o embaixador israelense na Índia afirmou publicamente que "não confiamos no Paquistão". A questão de se um país cujo ministro da Defesa profere esse tipo de declaração pode servir como mediador neutro é legítima e não foi respondida de forma satisfatória por Islamabad.


A conjuntura de segurança em Islamabad acrescenta uma camada adicional de complexidade. O Departamento de Estado classifica o Paquistão como destino de nível 3 de risco, alertando para ataques terroristas, crimes e sequestros, com grupos extremistas já tendo realizado ataques em Islamabad. Bill Gage, ex-agente do Serviço Secreto que esteve na capital paquistanesa com o presidente George W. Bush em 2006, descreveu o ambiente como "um dos piores em que o Serviço Secreto já operou", com briefings de que a Al-Qaeda queria sequestrar agentes americanos.


O que está em jogo em Islamabad vai além de um cessar-fogo temporário. As conversas devem abordar restrições nucleares, alívio de sanções e questões mais amplas de segurança regional, numa agenda que reflete décadas de desconfiança acumulada entre Washington e Teerã. Se as negociações produzirem um avanço concreto, o mercado global de petróleo, o Estreito de Ormuz e o índice de confiança dos investidores ao redor do mundo reagirão ainda neste fim de semana. Se colapsarem, o presidente Donald Trump já deixou claro que as forças americanas estão reabastecidas, descansadas e prontas.



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