Lula diz que PCC e CV não praticam terrorismo e “só querem dinheiro”
Presidente rejeita a classificação dos EUA e ignora territórios dominados, armamentos de guerra e infiltração no poder público

O presidente Lula (PT) afirmou na quinta-feira (15), em entrevista na TV Globo, que as facções criminosas brasileiras não praticam terrorismo e “só querem dinheiro”. A declaração veio em resposta à decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas, em maio. “Quando os Estados Unidos falam em terrorismo, eles falam em terrorismo de Estado. Falam em terrorismo como aqueles que atentaram contra as duas torres americanas, contra aqueles que querem dar golpe de Estado. Não é o caso das facções e do crime organizado no Brasil, que só querem dinheiro”, disse.
Na mesma resposta, o presidente fez uma concessão que desmonta a própria tese: “O que nós temos consciência é de que, aqui no Brasil, tanto o PCC quanto o Comando Vermelho são terroristas para a comunidade brasileira e para os bairros brasileiros e para as cidades. Mas não é o terrorismo de Estado que os Estados Unidos quer que seja”. Se as facções aterrorizam bairros e cidades, a discussão sobre o rótulo vira um pretexto semântico, e a insistência em que o objetivo é lucro funciona como salvo-conduto, como se o fim econômico apagasse o método.
O argumento ignora o que essas organizações fazem. Controlam territórios inteiros, cobram taxas de moradores e comerciantes, impõem regras e toques de recolher a quem vive nessas áreas, ameaçam e matam quem se opõe e enfrentam as forças de segurança com fuzis e armamento de guerra. Não se limitam ao tráfico: segundo investigação do Ministério Público de São Paulo, ao menos 12 das 22 empresas do transporte coletivo da capital paulista estariam sob influência do PCC, com indícios de financiamento de campanhas eleitorais de 2024. O próprio governo americano descreveu o Brasil, em relatório ao Congresso, como polo global de distribuição de cocaína e disse que o país “falhou” em confrontar as facções. Em setembro, 14 países da região se uniram aos EUA em sanções contra os dois grupos na coalizão Escudo das Américas, e o Brasil, país de origem das organizações, ficou de fora.
A fala segue um padrão. Em 18 de setembro, o presidente já havia dito que “terrorismo” foi o 8 de janeiro e a tentativa de golpe, e que não aceita a ideia de que as facções sejam terroristas. Agora repete o mesmo enquadramento, ao associar a palavra a quem “quer dar golpe de Estado”, reservando-a ao adversário político e poupando quem comanda o crime organizado.





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