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O desenrola Brasil e as eleições



O programa de renegociação de dívidas anunciado pelo governo federal representa uma intervenção estatal que merece análise rigorosa quanto aos seus verdadeiros efeitos sobre a economia brasileira. Longe de constituir solução estrutural para o endividamento das famílias, trata-se de mecanismo que transfere riscos do setor privado para o setor público, gerando ganhos temporários que se dissipam quando o ciclo econômico se inverte.


A mecânica do programa é simples: libera-se FGTS e utiliza-se o Fundo Garantidor de Operações como fiador das renegociações. Isso injeta poder de compra nas mãos de consumidores com elevada propensão marginal ao consumo. No curtíssimo prazo, o varejo reage, incorporadoras ganham impulso, bancos veem melhora na qualidade de carteira. O efeito é real, mas temporário. Quando o FGTS se esgota e o consumo normaliza, a economia retorna ao seu estado anterior, agora com passivos maiores no setor público.


O problema fiscal é o ponto central que não pode ser ignorado. O Tesouro Nacional assume garantias através do FGO. Se a inadimplência acelerar em um cenário de desaceleração econômica, o governo precisará socorrer o fundo. Isso ocorre em um momento em que a dívida pública já se encontra em trajetória insustentável, com relação dívida/PIB em patamares que comprometem a credibilidade fiscal do país. Qualquer contingência que force o Tesouro a ampliar gastos piora a percepção de risco soberano, elevando o custo de capital para toda a economia.


A inflação é consequência direta e previsível. Com mais dinheiro circulando e a capacidade produtiva da economia sem alteração, os preços sobem. O efeito é particularmente forte em serviços, onde a oferta é inelástica. Isso contamina as expectativas inflacionárias, forçando o Banco Central a manter a Selic em patamares elevados por mais tempo. O ganho de consumo no curto prazo é anulado pela pressão inflacionária persistente e pelos juros altos que perduram, comprimindo margens operacionais de empresas e desestimulando investimento produtivo.


Há um viés político evidente nessa arquitetura. O programa foi desenhado para gerar efeitos visíveis nos meses que precedem as eleições. Consumo mais forte, desemprego em queda, ações cíclicas em alta. O FGTS se esgota em semanas, o consumo reage em meses, o varejo e as incorporadoras ganham impulso antes do pleito. Após as eleições, quando os efeitos se dissipam e a inadimplência volta a acelerar, os passivos fiscais se materializam. A população já votou. O custo real da operação é pago depois, quando a atenção política se volta para outras questões.


Essa dinâmica revela um padrão recorrente na política econômica brasileira: priorizar ganhos eleitorais sobre ajustes estruturais. O país não resolve seus problemas de fundo. Não reduz gastos públicos, não melhora a qualidade do gasto, não aumenta a produtividade. Apenas redistribui demanda através de intervenções que ampliam o endividamento público.

O câmbio sofre pressão quando investidores percebem que o risco fiscal está piorando. O diferencial de juros, que hoje atrai capital externo, deixa de compensar o risco soberano crescente. Se a relação dívida/PIB continuar em trajetória insustentável, o prêmio de risco soberano se amplia. O dólar se aprecia, importações ficam mais caras, inflação acelera ainda mais. A economia entra em um ciclo vicioso de juros altos, inflação persistente e câmbio depreciado.


A solução real exigiria coragem política: redução de gastos públicos, eliminação de privilégios, privatizações, desoneração do setor produtivo. Isso não gera ganhos eleitorais imediatos. Por isso, o governo opta pelo caminho mais fácil: injetar demanda, mascarar os problemas estruturais e deixar que a próxima administração lide com as consequências.


O Desenrola Brasil é, portanto, um programa que mascara a incapacidade do governo de fazer ajustes estruturais. Beneficia grupos específicos no curtíssimo prazo enquanto amplifica os desequilíbrios que comprometem a estabilidade econômica de longo prazo. Para o investidor, isso significa: ganhos táticos em ativos cíclicos nos próximos meses, seguidos de reversão quando o ciclo se inverte. Para a economia, significa mais um ciclo de intervenção que adia o ajuste necessário e piora a trajetória fiscal.



1 comentário


Carlos Eduardo
Carlos Eduardo
08 de mai.

O único "desenrrola" (gíria vulgaríssima), que realmente seria eficaz no Brasil, seria um programa de cortar ministérios inteiros em custos e recomprar os títulos explosivos emitidos pela própria união...

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