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O preço que o Irã não quer pagar


O Irã está diante de um dilema que nenhum governo gostaria de enfrentar. Desmantelar seu programa nuclear significaria renunciar a décadas de investimento, bilhões de dólares gastos e, mais importante, a única carta que Teerã acredita ter para garantir sua sobrevivência política numa região dominada por potências militares superiores. Quando Donald Trump apresentou um plano de 15 pontos exigindo a desmontagem completa das instalações nucleares iranianas, a resposta foi imediata e previsível: rejeição total. Mas por trás dessa recusa está uma matemática econômica e estratégica que explica por que o Irã segue usando o petróleo como moeda de troca em vez de simplesmente capitular.


O programa nuclear iraniano não é um capricho ideológico. É o resultado de investimentos contínuos desde os anos 1970, quando o xá Mohammad Reza Pahlavi iniciou a construção da primeira usina nuclear em Bushehr. Ao longo de cinco décadas, o Irã despendeu recursos imensos em pesquisa, enriquecimento de urânio, construção de centrifugadoras e desenvolvimento de tecnologia de mísseis balísticos. Estimativas conservadoras apontam que o programa custou ao Irã entre 100 e 200 bilhões de dólares ao longo de todo esse período. Não é dinheiro que desaparece. É infraestrutura física, conhecimento acumulado e capacidade técnica que o país desenvolveu apesar de sanções internacionais severas.


O que torna o cálculo ainda mais complexo é que o Irã não pode simplesmente desmantelar essas instalações e recuperar o investimento. A desnuclearização não devolve o dinheiro gasto. Ela apenas encerra a possibilidade de uso futuro. Para um país que vê o programa nuclear como seu único escudo contra intervenção externa, essa é uma perda estratégica irreversível. O Irã sabe que, uma vez que entregue suas capacidades nucleares, não terá como recuperá-las rapidamente se as circunstâncias mudarem. Isso explica por que Teerã oferece concessões graduais e verificáveis, mas não capitulação total.


A questão econômica se complica ainda mais quando se considera o custo de manutenção versus o custo de abandono. Manter o programa nuclear custa dinheiro, mas é um investimento que o Irã já fez. Abandoná-lo significaria reconhecer que todos esses bilhões foram desperdiçados. Psicologicamente, governos relutam em fazer isso. É mais fácil justificar gastos contínuos com um programa existente do que admitir que os investimentos anteriores foram em vão. Essa dinâmica, conhecida em economia como viés do custo irrecuperável, afeta decisões racionais. O Irã segue investindo porque já investiu tanto que parar parece irracional, mesmo que continuar também seja economicamente prejudicial.


Há ainda a questão do que o Irã ganharia em troca da desnuclearização. O levantamento de sanções seria o prêmio óbvio. Sem sanções, o Irã poderia aumentar suas exportações de petróleo, atraindo investimento estrangeiro e acessando mercados globais. Economistas estimam que o levantamento completo de sanções poderia adicionar entre 50 e 100 bilhões de dólares ao PIB iraniano ao longo de uma década. Mas esse ganho é futuro, incerto e depende de que os Estados Unidos e aliados mantenham o acordo. O Irã já vivenciou essa fragilidade em 2015, quando assinou o JCPOA, o acordo nuclear que limitava seu enriquecimento de urânio em troca do levantamento de sanções. O acordo funcionou durante três anos até Trump se retirar unilateralmente em 2018, reimplementando sanções e desmantelando o consenso internacional que o sustentava. Teerã aprendeu que acordos com Washington podem ser descartados quando há mudança de governo. Isso reduz drasticamente o valor que o Irã atribui a promessas de levantamento de sanções.


A realidade é que o Irã enfrenta um jogo onde todas as opções têm custos elevados. Manter o programa nuclear mantém as sanções e o isolamento econômico, custando ao país dezenas de bilhões em receitas perdidas anualmente. Abandoná-lo elimina a possibilidade de ganho futuro em poder de barganha e deixa o país vulnerável militarmente. A terceira opção, a que o Irã está tentando agora, é usar o programa nuclear como moeda de troca para negociar levantamento de sanções sem desmantelamento completo. Isso permite que Teerã mantenha capacidade técnica enquanto ganha acesso a mercados e receitas de petróleo.


Nesse contexto, o petróleo se torna a ferramenta perfeita de pressão. Ao ameaçar fechar o Estreito de Ormuz ou reduzir exportações, o Irã impõe custos globais que afetam até mesmo os aliados dos norte-americanos. A alta do petróleo prejudica economias europeias, aumenta inflação nos Estados Unidos e reduz crescimento global. Isso cria incentivos para que potências internacionais pressionem Washington a negociar em vez de escalar militarmente. O Irã sabe que Trump não quer petróleo acima de 150 dólares por barril. Usa essa informação para ganhar espaço negociador.


O custo real da desnuclearização iraniana não é apenas econômico. É político, estratégico e psicológico. Envolve admitir derrota, reconhecer investimentos desperdiçados e aceitar vulnerabilidade militar permanente. Para um regime que vê o programa nuclear como símbolo de independência nacional e capacidade de resistência, esse preço é simplesmente impagável. Por isso o Irã segue negociando com petróleo. Não é o petróleo que move o Irã. É o medo do que representa renunciar à bomba nuclear.



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