Vorcaro diz à PGR ter pago R$ 30 milhões em dinheiro vivo ligados ao Instituto Lula
Em proposta de delação descartada, banqueiro afirma que o valor bancou um documentário sobre o presidente e que ex-tesoureiro do PT cobrou 10% de tudo o que o Master captasse

O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou à Procuradoria-Geral da República ter entregado cerca de R$ 30 milhões em espécie, fora de qualquer registro, como parte de um esquema de pagamentos indevidos ligado a negócios com fundos de pensão estatais. O dinheiro teria servido para custear um documentário sobre o presidente Lula produzido no exterior. Vorcaro relata ainda uma segunda transferência, de valor não revelado, feita diretamente ao Instituto Lula, entidade gerida por Paulo Okamotto, diretor e amigo do presidente. De acordo com o banqueiro, todos os repasses estariam vinculados ao acesso do Master a recursos dos fundos de previdência de servidores federais, com intermediação do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto.
As declarações constam da segunda proposta de colaboração premiada apresentada por Daniel Vorcaro, rejeitada pela PGR. O órgão decidiu não dar andamento ao caso por considerar que não há provas capazes de confirmar o relato, já que os pagamentos teriam sido feitos em dinheiro. A defesa do banqueiro discorda e sustenta que há elementos para amparar as afirmações, como mensagens de WhatsApp, registros de quem teria sacado os valores e informações sobre locais e trajetos das entregas.
Segundo o relato, a aproximação com o PT foi conduzida por Augusto Lima, então sócio e executivo do Banco Master, que teria recorrido a lideranças petistas da Bahia e ao auxílio do senador Jaques Wagner (PT-BA), à época líder do governo no Senado, para chegar a João Vaccari Neto. Nesse primeiro encontro, de acordo com Daniel Vorcaro, ficou estabelecido que, para reunir os votos necessários ao credenciamento do banco junto aos fundos do Banco do Brasil, da Caixa e à Previ, seria preciso fazer adiantamentos: um pagamento “por fora” de cerca de R$ 30 milhões, para cobrir despesas do filme sobre Lula, e repasses ao Instituto Lula. O banqueiro afirma ainda que Vaccari exigiu uma taxa de 10% sobre tudo o que o Master captasse junto aos fundos de servidores da Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios. Pelas estimativas apresentadas, o PT poderia receber R$ 1 bilhão de forma ilícita, e Vorcaro teria ganho de R$ 9 bilhões com a operação.
Em áudio, o ex-banqueiro descreve o arranjo a um interlocutor: o Banco do Brasil teria sido estruturado com João Vaccari Neto, Augusto Lima adiantaria valores a Paulo Okamotto, e o ex-tesoureiro teria pedido dinheiro para o filme sobre Lula. Quando o interlocutor compara a situação ao patrocínio superior a R$ 60 milhões que Daniel Vorcaro destinou ao filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, o banqueiro faz uma distinção: afirma ter colocado no filme de Lula até mais do que no outro, mas que aquele pagamento foi “por fora” e “errado”, enquanto o do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi “patrocínio normal”. A declaração é de Vorcaro, e Flávio Bolsonaro, que figura como investigado no inquérito sobre o financiamento de “Dark Horse”, nega ter dado qualquer contrapartida. A obra mencionada é o documentário “Lula”, dirigido por Oliver Stone, que reúne depoimentos de aliados do presidente, entre eles o advogado Walfrido Warde.
A proposta de delação cita também o ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT-SP), então titular da Secretaria de Relações Institucionais, o então secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, e dois operadores ligados a ambos. Vorcaro conta que, entre o fim de 2023 e o início de 2024, montou equipe interna para captar recursos de fundos de pensão do governo federal e passou a receber propostas que chamou de “mordidas”. O acesso aos dirigentes dos fundos teria sido intermediado por um operador petista identificado como Júlio, com trânsito livre no gabinete de Padilha no Planalto. Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do banqueiro indicam que Júlio o apresentou a Noleto, e o ex-ministro e empresário Walfrido dos Mares Guia registrou ter recebido de Olavo a informação de que ele “gostou muito” do banqueiro. Vorcaro afirma que depois foi ao Planalto conhecer Padilha e jantou com o ministro ao menos duas vezes, e que ouviu dele que o que tratasse com Olavo seria como tratar com o próprio Padilha.
Em seguida, segundo o relato, Júlio, Olavo e um primo deste, Fernando, foram à casa de Vorcaro e disseram que a única forma de entrar na Previ, na Petros e no Postalis seria pagar propina de 10% sobre tudo o que o banco captasse. Mensagens mostram o banqueiro cobrando andamento junto a Petros, Postalis e Previ e Júlio respondendo que o contato do “amigo”, em referência a Noleto, estava feito. Em 29 de abril de 2024, Augusto Lima comunicou a Vorcaro que o Master havia entrado na “lista exaustiva”, documento oficial que reúne as instituições autorizadas a receber recursos dos fundos estatais. No mesmo dia, Júlio cobrou R$ 500 mil, descritos como adiantamento da propina, e o banqueiro pagou, exigindo que o consultor entregasse pelo menos R$ 500 milhões em investimentos. Dois dias depois, Padilha, Olavo e Júlio jantaram na casa de Vorcaro.
O plano enfrentou um revés em julho de 2024, quando foi noticiada a primeira tentativa do Master de aplicar R$ 500 milhões em letras financeiras da Caixa e revelou que dois gerentes do banco haviam perdido seus cargos após emitir parecer contrário. Segundo Vorcaro, o grupo de Padilha e os dirigentes de Petros, Postalis e Banco do Brasil preferiram segurar a decisão. O banqueiro afirma ter obtido, ainda assim, captações em fundos municipais nos quais o operador Júlio tinha influência, com a mesma taxa de 10%, o que teria rendido ao menos R$ 6 milhões ao ministro e a seus operadores. Padilha e Noleto, afirma, também atuaram para viabilizar o encontro dele com Lula.
Apesar de tudo isso, Vorcaro diz que não conseguiu captar recursos dos fundos federais. Em junho de 2025, com a crise do banco em agravamento, cobrou Júlio por mais de 12 meses sem nenhum investimento concluído, e o operador atribuiu o insucesso às “fake news” sobre as fraudes do Master. No início de agosto daquele ano, após ceder um avião para nova tentativa sem resultado, o banqueiro encerrou a relação profissional.
Toda a delação foi rejeitada pela PGR, órgão chefiado por Paulo Gonet, que também aparece citado nas mensagens do caso e teve sua atuação analisada pelo Conselho Superior do Ministério Público Federal. As acusações se somam a outros elementos revelados nas últimas semanas pela Operação Compliance Zero: o jantar de Padilha na casa do banqueiro, em outubro de 2024, fora da agenda oficial, a reunião de Vorcaro com Lula no Planalto, em dezembro daquele ano, também ausente da agenda pública, o uísque agradecido pelo presidente segundo o advogado Walfrido Warde, e a acusação, feita na mesma proposta de delação, de que o grupo político de Jaques Wagner receberia R$ 3 milhões por mês.





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