A ordem da alma e as paixões desgovernadas
- Carlos Dias

- há 3 dias
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A tradição filosófica ocidental, profundamente enriquecida pela moral cristã, ensina que a verdadeira liberdade não reside na satisfação irrestrita dos impulsos, mas na capacidade de governar as próprias paixões. Quando Eric Voegelin reflete sobre a restauração da ordem, ele nos lembra que a ordem da sociedade é um reflexo direto da ordem da alma de seus indivíduos. A incapacidade de exercer o autogoverno moral e emocional não é apenas uma falha de caráter pessoal, mas o princípio da ruína institucional e política de uma nação.
No campo da ação humana, a racionalidade e a prudência devem orientar as escolhas. A economia de mercado e o capitalismo democrático, como bem observou Michael Novak, dependem de um arcabouço moral sólido. Indivíduos que se deixam dominar pela vaidade, pela ira ou pela ambição desmedida tendem a corromper o ambiente ao seu redor. No setor público, essa dinâmica assume proporções trágicas. O patrimonialismo histórico brasileiro é a materialização econômica da cobiça desgovernada, na qual o aparato estatal é capturado para satisfazer apetites privados em detrimento do pagador de impostos e do livre mercado.
Observamos com frequência na arena política figuras que perdem a compostura e a clareza de propósitos por não conseguirem refrear seus ímpetos. A política exige temperança. Quando a emoção sobrepuja a razão, o debate público se degrada. A defesa de princípios fundamentais, como o direito inalienável à vida desde a concepção até a morte natural, a legítima defesa e a propriedade privada, exige defensores que demonstrem estabilidade e virtude. O conservadorismo e o liberalismo clássico não se constroem com reações intempestivas, mas com a firmeza de convicções ancoradas na lei natural.
A falta de domínio sobre as próprias paixões gera um ambiente de instabilidade que afeta diretamente a confiança nas instituições. Como alerta Niall Ferguson ao tratar da degeneração institucional, o declínio do Estado de Direito começa quando as regras objetivas são substituídas pelos caprichos de quem detém o poder ou a influência. Se líderes e personalidades públicas agem movidos por ressentimentos ou vaidades momentâneas, eles enfraquecem a própria causa que dizem representar. O espetáculo das emoções descontroladas afasta a racionalidade necessária para a formulação de políticas públicas eficientes e afasta o apoio da sociedade civil.
A consequência econômica dessa desordem é o aumento da intervenção estatal. A ausência de responsabilidade individual sempre serve de pretexto para o avanço do poder central. Ludwig von Mises, ao analisar a ação humana, demonstra que o progresso civilizatório depende da substituição de impulsos instintivos pela cooperação social baseada no cálculo racional. Para que possamos defender uma economia verdadeiramente livre, com ampla descentralização de poder, respeito rigoroso a um limite de endividamento e autonomia monetária absoluta, precisamos de agentes públicos que compreendam o peso de suas ações. A liberdade, na tradição de João Carlos Espada, é inseparável da responsabilidade. Um líder incapaz de governar a si mesmo jamais será capaz de guiar a sociedade rumo à prosperidade.
A restauração da ordem política e econômica no Brasil exige um retorno à virtude da temperança. Precisamos rejeitar a política do espetáculo emocional e focar na construção de bases sólidas. A defesa da exploração racional de nossas riquezas, o combate enérgico à corrupção e a proteção da vida exigem mentes ordenadas. Somente quando o indivíduo retoma o controle sobre suas paixões é que a sociedade pode experimentar a verdadeira liberdade e a ordem duradoura. O autogoverno é a premissa fundamental para qualquer projeto de nação que almeje a grandeza.




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