Casa Branca mira concentração das “Big Four” — JBS USA, Tyson, Cargill e National Beef
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Governo Trump autoriza medidas para pecuaristas processarem a própria carne nos EUA e combater o monopólio no setor

O presidente Donald Trump anunciou, em 28 de agosto, que autorizou a elaboração de documentos legais para dar a agricultores e pecuaristas o direito de processar os próprios alimentos. O objetivo declarado é reduzir o que ele chamou de “monopólio nocivo” no processamento de carne nos Estados Unidos.
Em publicação no Truth Social, o presidente americano afirmou que pecuaristas e agricultores “sempre foram prioridade número um” e que, há anos, enfrentam problemas com as grandes processadoras. “Há, essencialmente, quatro delas, um número muito pouco competitivo, e elas tornam a vida miserável para nossos produtores”, escreveu. Em seguida, determinou que os documentos “avancem rapidamente”.
As quatro empresas citadas pelo mercado e pelo Departamento de Agricultura (USDA) — JBS USA, Tyson Foods, Cargill e National Beef Packing — respondem por cerca de 85% do processamento de carne bovina nos EUA. Duas delas têm controle brasileiro: a JBS USA, subsidiária da JBS, dos irmãos Batista, e a National Beef, ligada à MBRF. Parte relevante da capacidade de abate americano, portanto, está sob propriedade estrangeira, ponto que o próprio presidente Trump destacou ao falar em monopólio “com grande parte da propriedade fora dos Estados Unidos”.
A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, reagiu imediatamente e prometeu “grandes anúncios” a partir da semana seguinte. Entre os eixos citados estavam redução de burocracia no processamento, apoio financeiro e regulatório a frigoríficos pequenos e regionais, ampliação da venda de carne entre estados e revogação de orientações consideradas ultrapassadas.
Em 31 de agosto, o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) apresentou o Ranchers First Initiative, pacote voltado a reconstruir o rebanho bovino americano — no menor patamar em cerca de 75 anos — e a fortalecer processadores independentes. O programa prevê linha de empréstimos garantidos para frigoríficos independentes e regionais, incentivos à retenção de novilhas e prioridade de compra de carne processada localmente por órgãos públicos. O texto oficial, no entanto, ainda não detalha uma autorização ampla para venda comercial de carne abatida e processada na propriedade sem inspeção federal.
Hoje, o pecuarista americano já pode abater animal para consumo próprio. O gargalo está na comercialização. A legislação federal, aplicada pelo Food Safety and Inspection Service do USDA, exige inspeção em planta habilitada para que a carne seja vendida a varejo, restaurantes ou em outro estado. Plantas estaduais e de regime “custom-exempt” atendem nichos, mas não substituem o acesso ao mercado interestadual.O anúncio ocorre em um momento politicamente sensível. Semanas antes, a Casa Branca autorizou entrada temporária de até 300 mil toneladas de aparas magras de carne com alívio tarifário, medida pensada para aliviar o preço no varejo — a carne bovina nos EUA opera em patamares historicamente altos — e que provocou reação de pecuaristas e de parlamentares republicanos de estados pecuários. A ofensiva contra as processadoras funciona, nesse contexto, como contrapeso político à insatisfação no campo.
Há também frente antitruste. Em novembro de 2025, o presidente Donald Trump determinou investigação do Departamento de Justiça sobre possível conluio, manipulação de preços e restrição de capacidade entre as grandes empacotadoras. Em 2026, autoridades confirmaram que o inquérito seguia em curso e citaram a mesma concentração de 85% do mercado.
O efeito prático da ordem do presidente Trump ainda depende do desenho jurídico. Alterar o regime federal de inspeção por ato executivo esbarra em legislação de segurança alimentar vigente desde a década de 1960. Projetos no Congresso, como o PRIME Act, que permitiria a estados autorizar venda local de carne de pequenos abatedouros sem inspeção federal, não avançaram. Por isso, a via mais imediata da administração tende a ser desregulamentação incremental, crédito a frigoríficos menores e facilitação da venda interestadual — e não o fim da inspeção sanitária.
Para o Brasil, o episódio tem leitura dupla. De um lado, JBS e MBRF estão no centro do argumento oficial americano sobre concentração e de “propriedade estrangeira” da cadeia da carne. De outro, qualquer fragmentação real do processamento nos EUA, se ocorrer, altera o equilíbrio de poder de compra sobre o gado e a formação de preços no maior mercado consumidor de proteína do mundo.




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