J&F, dos irmãos Batista, compra a Avibras e passa a controlar uma das principais empresas de defesa e tecnologia militar do Brasil
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Grupo com histórico de corrupção comprovada na Lava Jato adquire companhia estratégica ligada a mísseis e sistemas de artilharia das Forças Armadas

A J&F, holding controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, adquiriu 100% da Avibras, uma das principais empresas da indústria de defesa brasileira. A operação foi realizada por meio da Globe Investimentos, veículo já utilizado pelo grupo em outros investimentos, e envolve a Nova AVB, estrutura criada durante a reestruturação da companhia. O negócio foi notificado ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, mas o valor da transação não foi divulgado.
A Avibras vinha de uma crise financeira severa e estava em recuperação judicial desde 2022, período marcado por longa paralisação e por uma greve que se estendeu por mais de três anos. Na reestruturação, os ativos industriais e tecnológicos foram concentrados na nova estrutura empresarial, enquanto a companhia original permaneceu com os passivos submetidos ao processo judicial. O plano alternativo de recuperação que viabilizou a criação da Nova AVB foi conduzido com participação do Brasil Crédito, fundo que já havia liderado, antes da entrada da J&F, uma captação de R$ 300 milhões para a empresa — captação da qual o próprio Joesley Batista já participava como investidor, ainda antes de assumir formalmente o controle.
A unidade da Avibras Aeroco, em Jacareí, voltou a operar em maio de 2026, recolocando em atividade uma empresa que concentra tecnologia sensível para as Forças Armadas brasileiras, entre eles o sistema de foguetes Astros e o desenvolvimento do MTC-300, míssil tático de cruzeiro. A Avibras é reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa e está diretamente envolvida em programas de interesse militar.
A J&F é a holding dos mesmos irmãos que, em maio de 2017, confessaram ao Ministério Público Federal um dos maiores esquemas de corrupção da história do país, num acordo de delação premiada que expôs pagamento de propina a cerca de 1.800 candidatos de 28 partidos. Segundo os próprios termos da delação, Joesley Batista relatou ter transferido US$ 50 milhões ao então ex-presidente Lula e US$ 30 milhões à ex-presidente Dilma Rousseff em contas no exterior, além de gravar o então presidente Michel Temer demonstrando anuência ao pagamento de propina ao ex-deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados à época. O acordo de leniência resultante impôs à J&F uma multa de R$ 10,3 bilhões, a ser paga ao longo de 25 anos — valor cujo pagamento foi suspenso em 2023 pelo ministro Dias Toffoli, do STF, e segue em disputa judicial.
O histórico de má-fé processual dos irmãos também é documentado: em 2017, a Procuradoria-Geral da República pediu a rescisão das delações de Joesley e Wesley por entender que ambos agiram de forma desleal e omitiram fatos ao Ministério Público, contando com auxílio do ex-procurador Marcelo Miller, acusado de atuar em duplo papel. O caso só foi resolvido em 2020, quando os irmãos aceitaram repactuar o acordo mediante multa adicional de R$ 1 bilhão e penas privativas de liberdade. Some-se a isso a condenação pela CVM, em 2020, por uso indevido do jato particular da JBS para fins pessoais, e o processo arbitral que obrigou a própria J&F a indenizar a JBS em mais de R$ 543 milhões pelos danos causados à companhia pelas revelações da delação.
É esse mesmo grupo, com um histórico documentado de suborno sistemático ao mais alto escalão da política brasileira que agora assume o controle integral de uma empresa que desenvolve mísseis táticos e sistemas de artilharia usados pelas Forças Armadas do Brasil. Não se trata de uma aquisição qualquer no varejo ou na indústria de bens de consumo: trata-se de uma empresa que, em síntese, guarda tecnologia militar sensível, cujos projetos interessam diretamente à soberania e à capacidade de dissuasão do Estado brasileiro, que ignora a dimensão de segurança nacional envolvida no negócio.
A Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados aprovou requerimento para obter do Ministério da Defesa informações sobre o processo de aquisição e a situação atual da companhia — um primeiro sinal de que o Congresso, ainda que tardiamente, começa a questionar se a proteção do interesse estratégico nacional foi de fato considerada nessa negociação, ou se, mais uma vez, prevaleceu a lógica de que dinheiro resolve qualquer obstáculo, inclusive o acesso a segredos de defesa de um país inteiro.




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