Lula diz que a dívida pública "não preocupa"
- Núcleo de Notícias

- há 1 hora
- 3 min de leitura
Presidente volta a culpar Roberto Campos Neto pela trajetória do endividamento

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo PT, afirmou na noite de quinta-feira (27), durante sabatina promovida pela TV Globo, que a trajetória da dívida pública brasileira não o preocupa, ainda que o indicador tenha saltado de 72% para 82% do Produto Interno Bruto ao longo de seu terceiro mandato. "A mim, não preocupa a dívida pública", declarou o petista. A própria equipe econômica do governo projeta que o endividamento atinja 87% do PIB até 2029, uma trajetória impossível de ser descrita como estável ou controlada.
Lula atribuiu o crescimento da dívida aos juros elevados e resgatou críticas antigas ao ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro. Campos Neto permaneceu no cargo durante os dois primeiros anos do atual governo e foi alvo recorrente de ataques do próprio Lula e de seus aliados pela manutenção da Selic em patamar elevado. "Eu fiquei dois anos com o presidente do Bolsonaro", disse o petista, numa tentativa de transferir a responsabilidade pela trajetória do endividamento a uma gestão anterior à sua própria condução das contas públicas.
Indo ainda mais longe, presidente deu uma declaração delirante: "Vamos fazer um superávit de 0,1% neste ano. Portanto, se tem alguém nesse país que tem responsabilidade fiscal, sou eu".
A afirmação não resiste ao confronto com os números mais recentes divulgados pelo próprio Tesouro Nacional. O primeiro semestre de 2026 fechou com déficit primário de R$ 92,98 bilhões, e o déficit nominal, que incorpora o pagamento de juros da dívida pública, somou R$ 624,1 bilhões no mesmo período — resultados que contradizem diretamente a promessa de um superávit primário de 0,1% para o ano inteiro. A dívida pública federal já alcançava R$ 9,268 trilhões em junho, com trajetória de alta mensal persistente ao longo de todo o ano. O relatório Prisma, elaborado pelo Banco Central a partir de projeções do mercado, também revisou para pior tanto o déficit esperado quanto o nível de endividamento previsto para 2026 e 2027, com a dívida bruta projetada em 86,77% do PIB já no próximo ano — patamar muito próximo da projeção de 87% que a própria equipe econômica de Lula reconhece para 2029, o que sugere que a deterioração pode se materializar de forma ainda mais acelerada do que o governo admite publicamente.
A tentativa de responsabilizar exclusivamente os juros altos pela escalada da dívida também ignora a relação de causa e efeito que o próprio mercado financeiro já identificou repetidamente: a Selic permanece em patamar restritivo precisamente porque a inflação segue pressionada por um desequilíbrio fiscal crônico, e não o contrário. O Comitê de Política Monetária já havia sinalizado, em comunicados recentes, que os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam diretamente a condução da política monetária, reforçando a postura de cautela do Banco Central diante de um cenário de maior incerteza. Em outras palavras, os juros altos que Lula aponta como vilão da dívida pública são consequência direta da própria incapacidade de seu governo em equilibrar as contas públicas — não uma imposição externa alheia à sua gestão.
A revolta declarada contra Campos Neto também soa contraditória diante do histórico recente: mesmo com um Banco Central hoje presidido por Gabriel Galípolo, nome indicado pelo próprio Lula, a Selic segue em 14% ao ano, e o ciclo de cortes promovido ao longo de 2026 foi conduzido de forma cautelosa, justamente pelos mesmos riscos fiscais que a gestão petista tenta minimizar publicamente. Se a origem do problema fosse, de fato, um legado deixado por Campos Neto, seria de se esperar que a nova diretoria do BC já tivesse condições de reverter integralmente a política de juros altos — o que não ocorreu, e que o próprio mercado atribui, majoritariamente, à falta de ajuste fiscal do governo atual.




Comentários