O erro de manobra do Copom
- Carlos Dias

- há 3 horas
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A decisão do Copom de reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, trazendo-a para 14,5 por cento ao ano, ocorre em um momento de elevada incerteza interna e externa, o que exige prudência redobrada. A medida, embora apresentada como ajuste calibrado, expõe fragilidades estruturais da economia brasileira e evidencia um descompasso entre as condições objetivas do país e a trajetória desejada de flexibilização monetária. Com projeções de inflação ainda bem acima do centro da meta e um quadro fiscal que permanece fortemente pressionado, o corte sinaliza um risco de interpretação equivocada por parte dos agentes econômicos.
As projeções do último Boletim Focus mostram um IPCA de 4,86 por cento em 2026 e de 4,00 por cento em 2027. Esses números não configuram convergência confortável da inflação. A taxa permanece colada ao teto da meta, e a economia segue convivendo com indexações, salários pressionados e um ambiente de câmbio volátil. Em uma economia tão sensível à dinâmica cambial, uma Selic menor tende a ampliar pressões sobre os preços de bens transacionáveis, sobretudo diante de um câmbio projetado em 5,25 reais por dólar em 2026 e 5,35 em 2027. A depreciação gradual da moeda nacional tem efeito direto sobre a formação de preços e expõe uma vulnerabilidade que não pode ser ignorada.
O PIB projetado em pouco menos de dois por cento para os dois anos reforça a estagnação do país. Uma economia que cresce pouco não gera arrecadação suficiente para estabilizar a dívida nem cria condições para um ambiente de negócios mais dinâmico. Esse crescimento anêmico não pode ser interpretado como sinal verde para reduzir juros, já que não decorre de excesso de aperto monetário, mas sim de problemas estruturais acumulados por décadas: baixa produtividade, ambiente regulatório instável, carga tributária elevada e um Estado que interfere em excesso nos mais variados setores. Ajustes conjunturais na Selic têm efeito limitado diante dessas restrições e não resolvem a essência do problema.
A situação fiscal, por sua vez, permanece como ponto central da análise. Com dívida pública elevada e tendência de crescimento, a capacidade do governo de honrar compromissos depende de um arcabouço fiscal ainda visto com desconfiança. A rigidez orçamentária, combinada a uma série de despesas obrigatórias crescentes, limita severamente a margem de manobra. Reduzir juros nesse contexto transmite ao mercado uma mensagem confusa. Os investidores passam a questionar se o Banco Central está cedendo a pressões políticas ou tentando estimular artificialmente a atividade, mesmo sem sinais de que a trajetória de endividamento esteja sob controle.
Essa desconfiança tende a se refletir na curva de juros, que pode voltar a abrir, principalmente nos vértices mais longos. O movimento pressiona o crédito privado e encarece investimentos produtivos, criando um círculo vicioso em que o corte da Selic, em vez de estimular a economia, reforça incertezas. O câmbio também é sensível a esse tipo de sinalização e, em um ambiente internacional de juros elevados, tende a responder rapidamente a qualquer indicação de acomodação na política monetária doméstica. Uma moeda mais fraca em meio a expectativas inflacionárias ainda resistentes pode comprometer o próprio objetivo do Copom.
No campo institucional, o corte ocorre em um momento em que o país deveria priorizar a credibilidade. Com o cenário geopolítico carregado e os Estados Unidos mantendo juros elevados, a busca por ativos seguros tem direcionado fluxos financeiros para economias mais previsíveis. Países emergentes enfrentam exame mais cuidadoso dos investidores, que olham com precaução qualquer movimento que sinalize perda de rigor no controle inflacionário. No caso brasileiro, essa cautela é ainda mais justificada devido ao risco fiscal elevado e às disputas políticas que frequentemente tensionam a relação entre governo, Congresso e Banco Central.
A economia brasileira segue com carências profundas. O excesso de regulação, a baixa taxa de investimento, o peso da máquina pública e a dificuldade de avançar em reformas institucionais compõem um ambiente pouco propício à expansão sustentada. Em vez de atuar sobre essas causas, o debate político se concentra em medidas de curto prazo, muitas vezes focadas em estímulos artificiais. A redução da Selic pode ser lida como parte dessa lógica, que tenta corrigir problemas com instrumentos incompatíveis com sua origem.
Portanto, uma avaliação técnica e prudente indica que o momento escolhido pelo Copom não é o mais apropriado para flexibilizar a política monetária. A economia exige clareza de rumos, firmeza no combate à inflação e compromisso real com a responsabilidade fiscal. Qualquer sinal de leniência pode gerar efeitos adversos e prolongar ainda mais o ciclo de baixo crescimento, juros altos e moeda fraca. Em vez de aliviar, a decisão tende a reforçar incertezas e intensificar o questionamento sobre a capacidade do país de retomar um caminho de estabilidade e prosperidade.




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