Por que podemos tirar o Terça Livre do ar e não podemos queimar a obra de Kafka?
- Instituto Democracia e Liberdade

- 21 de jun. de 2023
- 2 min de leitura
Existem limites estéticos para a censura?

Fazemos esta pergunta, que é o título, do texto, mormente àqueles que acham que, em certos casos, é razoável a censura a redes sociais e Canais do YouTube. Ninguém em seu juízo perfeito aceitaria botar fogo em obras literárias. Por que então há juristas e Magistrados que aceitam, bovinamente, a remoção de conteúdo de redes sociais e Canais de YouTube?
Poder-se-ia dizer que o conteúdo literário é mais rico que o de um Felipe Neto! Certamente que o é, mas Felipe Neto não consta – ainda – entre os produtores de conteúdo censurados (tampouco lhe desejamos esta sorte).
Ocorre que esta resposta é totalmente falsa. Primeiro que, da mesma forma que há a excelente e a péssima literatura – e entre esses adjetivos cabem a ruim, a péssima, a boa, a ótima, a mediana –, também há excelentes e horrorosos vídeos na plataforma. Entrevistas e aulas com o Professor Olavo de Carvalho, registros históricos importantíssimos, dentre outros.
Poderíamos usar o critério qualidade literária/de produção?! Poderíamos então falar de obras/artistas/canais deletáveis e outros não. Qual seria o critério, então, que nos permitiria queimar um livro ou deletar um canal? Forma ou conteúdo?
Usar o exemplo de Kafka não foi acidental. Da mesma forma que 1984 (George Orwell), “O Processo” é um livro que é preditivo para o tempo que vivemos. Se Orwell comenta o peso de um Estado Totalitário sobre seus cidadãos (e, particularmente, defendemos a tese que 1984 e Admirável Mundo Novo poderiam, tranquilamente, existir no mesmo Universo Literário, mas isso é tema para outro texto); Kafka, em “O Processo” antecipa os nocivos efeitos de uma juristocracia, uma Ditadura da Toga, pode ter sobre os cidadãos e a sociedade? (Lembremos que a hipertrofia dos poderes dos Magistrados, mormente no pós-pandemia de Covid-19, não é um fenômeno exclusivamente brasileiro).
Apenas o leitor habituado a ler entrelinhas percebe que a obra de Kafka é uma antecipação do que estaria por vir. Kafka, por ser um autor com mais ferramentas literárias que Orwell (e isso é algo indiscutível) precisa, exatamente por isso, “escrever menos”, sem dar tanta importância a uma quantidade grande de personagens, tampouco em situar o leitor num espaço e tempo definidos.
Posto isto, reconhecendo um plus literário do autor Tcheco em relação a Orwell poderíamos sugerir queimar a obra daquele último. Não nos custa lembrar que a obra de George Orwell já foi censurada e, ainda hoje, é desaconselhada em [algumas] Universidades Europeias.
Ou, por outra, poderíamos sugerir queimar “O Processo”, visto que Kafka pedira a Max Brod, seu amigo, que queimasse esta obra por não estar à sua altura.
Sobre o ponto acima elencado temos outro fator, fora dos Textos Legais, para sermos contrários à censura: Kafka considerava seu melhor livro indigno de sua obra. O que podemos apreender com isso? Simplesmente a qualidade literário/artístico/cultural de um livro e/ou vídeo no YouTube, por vezes, apenas e tão-somente será reconhecida dezenas de anos após a morte de seus autores.
Esperamos com esse breve texto que vocês, Defensores da Censura na Internet, se façam a seguinte asserção: poderíamos censurar/proibir [toda] a obra de Kafka?


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