Roberta Luchsinger usava voos da FAB, frequentava sala de Lula e contradiz fala do presidente de que "nunca a viu"
Lobista relatava a terceiros embarques pela base aérea "com o filho do presidente" e visitas ao Palácio

Um conjunto de mensagens de WhatsApp da lobista Roberta Luchsinger, obtidas pela imprensa nesta segunda-feira (21), revela um padrão de acesso direto tanto a voos da Força Aérea Brasileira quanto às dependências mais restritas do Palácio do Planalto — incluindo a própria sala do presidente Lula —, num contraste direto com a versão apresentada pelo petista em entrevista recente.
Em sabatina concedida à TV Globo no dia 27 de agosto, Lula afirmou categoricamente nunca ter visto a lobista: "Eu não conheço essa moça. Nunca vi essa moça na minha vida. Nunca conversei com essa moça. Ela nunca esteve próxima de mim", disse o presidente, chegando a chamá-la de "pilantra" na mesma entrevista.
As mensagens, porém, contam história bem diferente. Em 24 de março de 2023, Luchsinger avisou à própria mãe que viajara "de aero lula" para Brasília — expressão que, diante da pergunta da mãe se seria "o avião do Lula", a lobista confirmou sem rodeios: "Avião do Lula kkkkk". Na sequência, enviou à mãe uma foto tirada de dentro do Palácio do Planalto, com vista para o Congresso Nacional. Registros da portaria do Palácio, obtidos via Lei de Acesso à Informação, confirmam sua entrada no edifício em 22 de março daquele ano, às 15h37 — dois dias antes da mensagem à mãe.
O uso de voos oficiais se repete em outros registros. Em áudio enviado a uma assessora do governo da Bahia, em novembro de 2023, Roberta Luchsinger avisou que embarcaria "de FAB" ao lado "do filho do presidente", explicando que esse tipo de deslocamento não seguia os horários de voos comerciais porque o embarque ocorria "pela base aérea". Em fevereiro de 2024, durante viagem à Suíça acompanhando Lulinha e a família dele para participar de reunião na sede da ONU em Genebra, a lobista relatou a um cliente de sua consultoria estar "voltando de FAB".
Além de citar voos oficiais, Roberta Luchsinger costumava se referir a Lula por "pai do Fábio" em suas conversas. Em mensagem a uma advogada, em junho deste ano, escreveu estar "no palácio" e sem conseguir digitar muito porque estava "na sala do pai do Fábio". Em outra interação, contou a um advogado paulista ter estado tanto com Lula quanto com Lulinha na semana anterior. Esse mesmo interlocutor chegou a pedir que ela intermediasse contato com o presidente sobre o conflito entre Israel e Palestina, dada sua ligação com a comunidade judaica.
Outros trechos reforçam a familiaridade da lobista com a agenda pessoal do presidente. Num áudio de outubro de 2023, mencionou o aniversário do "pai do Fábio", marcado para o dia 27 — data que efetivamente coincide com o aniversário de Lula. Um ano depois, em outra mensagem, relatou ter precisado antecipar uma viagem a Brasília porque o "pai do Fábio" havia pedido, explicando o motivo: ele teria caído "da cadeirinha tomando banho" e precisado adiar uma viagem própria — episódio que efetivamente aconteceu com Lula em 19 de outubro de 2024 e foi amplamente noticiado à época, o que reforça a identificação inequívoca de quem a lobista se referia.
O caso Luchsinger-Lulinha integra hoje três inquéritos distintos no STF, o principal deles investigando suposto tráfico de influência no Ministério da Saúde para viabilizar a venda de fármacos derivados de maconha, como o CBD, numa articulação que também envolveria Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS". Lulinha e Antunes também são sócios na empresa de maconha medicinal Cannabis World, de propriedade do próprio Careca do INSS, e já viajaram juntos a Portugal e Espanha — país onde Lulinha vive desde meados do ano passado.





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