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A fé como disfarce



O Partido dos Trabalhadores publicou uma carta dirigida aos católicos brasileiros que não passa de um vulgar manifesto político. O documento abre com João 10,10, “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância”, e dessa altura já se precipita. A passagem de Cristo é reduzida a citação de campanha. A promessa salvífica do Evangelho é convertida em plataforma de governo. A “vida em abundância” não é a vida eterna, o perdão dos pecados ou a redenção da alma: é a reeleição do presidente Lula. Isso não é teologia. É sequestro de texto sagrado para fins político-partidários.


Para quem se apresenta publicamente como católico, o silêncio mais grave do documento é a ausência total da defesa da vida humana desde a concepção até a morte natural. A carta não menciona o aborto. Não menciona a eutanásia. Não menciona a objeção de consciência. Não menciona a família como célula básica da sociedade. Nada. O silêncio é ensurdecedor e revelador. O mesmo partido que fez da interrupção voluntária da gravidez (aborto), uma de suas bandeiras históricas agora produz um documento que se pretende católico mas trata o direito à vida como tema inexistente. São João Paulo II foi inequívoco na Evangelium Vitae: a defesa da vida é o pilar central da dignidade humana, anterior a qualquer programa de governo. O que a carta faz é omitir esse pilar e esperar que ninguém perceba.


A Doutrina Social da Igreja é invocada de maneira seletiva e desonesta. A carta toma o princípio da solidariedade e o expande até que os demais desapareçam. A subsidiariedade, ensinamento central da Centesimus Annus, é simplesmente ignorada. Para os signatários, o bem comum é sinônimo de ação estatal. O Estado distribui Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Farmácia Popular, Pé-de-Meia, e isso seria a realização do bem comum. A família, a Igreja, as associações voluntárias, o mercado, o empreendedorismo (todas as comunidades intermediárias que a Doutrina Social reconhece como corpos primários de realização do bem comum) são reduzidas a espectadores passivos do Estado provedor.


Essa redução da Doutrina Social a um instrumento de legitimação estatal revela a verdadeira intenção do documento. Não se trata de um apelo à fé católica. Trata-se de uma apropriação da linguagem católica para justificar um modelo de Estado que concentra poder, recursos e decisões nas mãos de uma burocracia central. A Igreja sempre defendeu que o bem comum emerge da ação coordenada de múltiplos corpos sociais, cada um exercendo sua função própria. A carta inverte essa lógica: o Estado é tudo, as demais instituições são nada. Isso não é catolicismo. É estatismo vestido de linguagem religiosa.


Há uma contradição que salta aos olhos. O texto denuncia “condutas parlamentares que transformam igrejas em palanques”. A crítica é justa, mas o documento inteiro é uma peça de campanha vestida de linguagem religiosa. A diferença entre o parlamentar que prega no púlpito para angariar votos e o partido que usa a teologia para o mesmo fim é apenas de método, não de princípio. Em ambos os casos, a fé é instrumentalizada. A crítica deveria vir acompanhada de um mínimo de autoconsciência.


O fenômeno que a carta exemplifica é a redução da esperança transcendente a um projeto político imanente. A esperança cristã aponta para o Reino de Deus, para a salvação eterna, para a vida que não passa. A carta domestica essa esperança e a converte em reeleição presidencial, em programas de transferência de renda, em políticas públicas. A promessa escatológica é sequestrada para legitimar um programa de governo. Não é totalitarismo, mas sua estrutura lógica é a mesma: a promessa transcendente é reduzida a ferramenta de poder político.


A afirmação de que “o catolicismo brasileiro é plural” merece exame cuidadoso. No sentido descritivo, é verdade: o Brasil tem múltiplas expressões de catolicismo, das irmandades coloniais à Renovação Carismática, dos Arautos do Evangelho ao Opus Dei. O problema é o sentido normativo que o documento subentende. Se “plural” significa que qualquer posição é igualmente válida independentemente do Magistério, então a afirmação nega a própria natureza da Igreja, que é una na fé, una na moral, una na doutrina. São João Paulo II, em Veritatis Splendor, foi direto ao denunciar o pluralismo ético que permite posições contraditórias dentro da Igreja sob o disfarce de diversidade. Invocar a pluralidade do catolicismo para silenciar sobre a vida não é pluralidade. É ruptura.


No campo econômico, a carta defende o fim da escala 6×1 e a tarifa zero sem qualquer análise de custos ou consequências. O Estado é tratado como fonte inesgotável de recursos, num ano em que o déficit primário projetado pelo mercado ultrapassa R$ 70 bilhões, a dívida pública acelera e o arcabouço fiscal é mantido à base de exceções contábeis. A ausência de qualquer menção à disciplina fiscal, à trajetória da dívida ou ao equilíbrio orçamentário não é omissão ingênua: é coerência com uma visão de mundo que vê no Estado o único agente relevante. Uma Igreja que se pretende católica não pode ignorar que a irresponsabilidade fiscal corrói a capacidade do Estado de cumprir suas funções legítimas e que a inflação, filha da desorganização monetária, é um imposto invisível que recai sobre os mais pobres.


A carta das católicas e dos católicos do PT não é um documento católico. É um manifesto partidário que usa a linguagem da fé para angariar votos. Omissões não são acidentais: revelam escolhas. A escolha de silenciar sobre a vida, de ignorar a subsidiariedade, de tratar a propriedade privada como tema irrelevante e de domesticar a esperança transcendente como programa de governo diz mais sobre os autores do que qualquer parágrafo do documento. Católicos de boa consciência devem ler a carta com olhos abertos e reconhecer nela não a voz da Igreja, mas a voz de um partido que, mais uma vez, tenta vestir a túnica de Cristo para vencer eleições.



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