A rendição voluntária: Europa, defesa e a ilusão do multilateralismo
- Carlos Dias

- há 7 horas
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A cada cúpula da OTAN, repete-se o mesmo ritual. Líderes europeus se reúnem para lamentar as “ameaças” americanas, desta vez com a Groenlândia como pano de fundo. O tom é sempre o mesmo: indignação seletiva, vitimismo estratégico e zero autoconsciência sobre as realidades que moldaram a ordem de segurança transatlântica.
O público da Europa Ocidental deveria reconhecer uma verdade incômoda: pela primeira vez desde a fundação da aliança atlântica, Washington conseguiu o que nenhum presidente antes ousou cobrar com firmeza, que aqueles países destinassem parcela maior do seu PIB à própria defesa. O número de membros da OTAN que atingem a meta de 2% saltou de três para mais de vinte em menos de uma década. Isso não aconteceu por generosidade europeia ou por lucidez estratégica. Aconteceu porque alguém finalmente deixou de bancar o cavalheiro e passou a exigir.
A questão fundamental reside na assimetria de capacidades e vontade política. Durante sete décadas, a Europa Ocidental construiu sua segurança sobre um arranjo que permitia investimento mínimo em defesa. O “dividendo da paz” pós-1989 transformou-se em letargia estratégica. Enquanto isso, a Rússia reconstitui seu poder militar, a China expande sua projeção global e o Irã consolida uma rede de influência que se estende do Levante, através do Líbano, Síria e Iraque, até o Golfo Pérsico. A Europa, por sua vez, fragmenta-se em debates sobre “soberania estratégica”, conceito que permanece vago e desconectado de capacidades reais.
Trump está certo ao identificar a decadência que permeia as estruturas de poder europeia. Não se trata apenas de questões morais ou sociais, embora estas existam. Trata-se de uma erosão da capacidade de decisão estratégica autônoma. Nesta confrontação que opõe Israel e Estados Unidos à arquitetura de poder xiita iraniana, os governos europeus inventaram pretextos covardes para não prestar apoio concreto às forças de Washington e Jerusalém, mesmo quando isso correspondia ao interesse objetivo do próprio Ocidente e à estabilidade regional.
Os fatos são teimosos. Há meio século, Teerã funciona como epicentro de perturbação sistêmica na ordem internacional. O regime dos aiatolás não é mero ator regional; é um vetor de instabilidade que opera através de múltiplos canais: a Guarda Revolucionária Islâmica, as milícias por procuração (Hezbollah, Houthis, Kataib Hezbollah), a proliferação nuclear e o controle de rotas estratégicas. Esse regime provoca perturbações no mercado mundial de petróleo, financia redes terroristas em quatro continentes e exporta uma revolução que já deixou um rastro de sangue do Líbano ao Iêmen, passando pela Síria e pelo Iraque. Diante disso, a resposta europeia é fazer discursos sobre “direitos humanos” enquanto evita qualquer ação concreta, uma postura que, paradoxalmente, permite que violações ainda maiores ocorram.
A Europa também falha em compreender a dimensão geopolítica mais ampla. A competição sino-americana, a reconfiguração do Oriente Médio pós-2015 (após o acordo nuclear iraniano) e a ressurgência russa exigem alinhamentos claros. A ilusão de uma “terceira via” europeia, nem americana, nem chinesa, nem russa, é precisamente isso: uma ilusão estratégica. Na prática, essa postura deixa a Europa à mercê de potências que não hesitam em perseguir seus interesses com clareza estratégica.
Chega-se então à pergunta que o establishment diplomático europeu não quer enfrentar: se as sociedades e os governos europeus perderam a vontade de viver com honra, na defesa dos seus valores tradicionais e dos seus interesses materiais, por que obrigar os Estados Unidos a continuar protegendo-os? A resposta americana, cada vez mais explícita, é: não faremos mais isso sem contrapartida.
A Europa Ocidental parece querer se transformar naquilo que a Europa Oriental foi durante a Cortina de Ferro, mas por escolha própria. É uma rendição voluntária, disfarçada de multilateralismo e “autonomia estratégica”. Triste, mas reveladora. E, mais importante, insustentável.




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