A vocação traída do Brasil e o caminho de volta

No dia 12 de outubro o país se detém diante de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. A data não é folclore nem cartão-postal. Ela nos coloca diante de uma verdade que a cultura oficial se esforça por apagar. O Brasil tem uma vocação. Assim como cada alma recebe de Deus um chamado específico, os povos também recebem dele uma destinação. Foi assim com Israel, foi assim com as nações cristãs da Europa e foi assim com esta terra que os navegantes portugueses batizaram de Terra de Santa Cruz. A nossa vocação nasceu católica e nenhum diploma legislativo, decreto ou decisão de tribunal tem competência para revogar aquilo que Deus imprimiu na alma de um povo.
Há quem pretenda reduzir a fé à esfera íntima da consciência, como se o batismo de um país fosse mero acidente histórico. O argumento é frágil. O fundamento do Estado, do direito e da civilização não reside no solo, na fauna, na flora ou mesmo nos rios. Reside nas almas. Se ainda existe no coração dos brasileiros a fé na única e santa Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, o Brasil continua sendo um país católico, ainda que as instituições neguem essa identidade com obstinação. A laicidade do Estado não apaga a vocação sobrenatural de um povo. Ela apenas administra, muitas vezes com hostilidade, a tensão entre essa vocação e os apetites de quem detém o poder.
Essa tensão se tornou contradição aberta. Vivemos um momento de apostasia. Não se trata de retórica dramática. A apostasia é o afastamento progressivo da fé vivida, o envergonhar-se coletivo de ser católico, a redução da religião a um capítulo embaraçoso da história que convém varrer para debaixo do tapete. E a contradição é de natureza grave. Um país que proclama a padroeira em feriado nacional é o mesmo país cujas práticas de Estado se voltam contra a vida. Autoriza-se a morte do inocente, relativiza-se o valor do nascituro, financiam-se políticas anti-vida com dinheiro dos católicos e celebra-se tudo em nome da liberdade e da modernidade. São João Paulo II ensinou em Evangelium Vitae que entre o Evangelho da vida e a cultura da morte não existe mediação possível. Um Estado que se declara neutro nessa disputa já escolheu um lado, porque diante do bem fundamental da vida a neutralidade é uma ficção moral.
A decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a chamada assistolia fetal representa o grau mais avançado dessa lógica. Quando o tribunal maior da República autoriza a interrupção de uma vida humana que ainda se agita no ventre materno, o Estado deixa de ser falível e se torna cúmplice direto do arbítrio contra o mais indefeso. Não é um debate jurídico sofisticado. É a negação do direito à vida, primeiro de todos os direitos, em favor de uma antropologia que mede a dignidade humana por critérios de funcionalidade. A vida passa a valer na proporção da sua utilidade ou da sua viabilidade. É a mesma racionalidade que serviu ao darwinismo social e aos totalitarismos do século passado. Eric Voegelin demonstrou que quando as civilizações rejeitam a ordem transcendente, não ficam neutras. Elas aderem a falsos imanentismos e constroem sistemas de morte com vocabulário humanitário. O que se passa no Brasil é isso, em versão acadêmica e judicial.
Nesse quadro, a conduta da cúpula da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) merece repúdio. Enquanto o país descia a ladeira da morte institucional, a liderança da entidade preferiu o vocabulário da harmonia social, o elogio do diálogo e as notas genéricas. Há bispos por demais corajosos, é verdade. Mas a direção política da instituição optou por uma presença pública diluída, temerosa de incomodar o poder, mais atenta à boa imprensa do que ao rebanho. A Igreja que não incomoda não evangeliza. As pastorais que evitam o conflito com o Leviatã abandonam, na prática, os mais fracos, precisamente aqueles que deveriam proteger em primeiro lugar.
Tão grave quanto é a covardia da Frente Parlamentar Católica no Congresso. Parlamentares que se apresentam como católicos convivem bem com a contradição que descrevi, votando com o establishment quando convém à carreira e invocando a fé quando convém à eleição. Essa hipocrisia tem nome teológico. É apostasia prática, pois consiste em confessar com os lábios aquilo que se nega com os atos. O católico que apoia ou tolera medidas anti-vida não erra em pontos secundários. Ele contradiz a fé que professa e contribui para que o Estado consagre juridicamente a cultura da morte. A palavra de Cristo é clara. Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus.
Aqui está o núcleo da tragédia brasileira. A corrupção do que é mais alto produz a queda mais funda. Um país de vocação elevada que apostata dela se torna pior do que seria se jamais tivesse sido chamado. O Brasil não é um país qualquer entre os demais. Ele recebeu um depósito e está desperdiçando esse depósito. O Apocalipse apresenta a mulher vestida de sol, aquela que tem inimizade com a serpente e que triunfará. Nossa Senhora Aparecida é essa mulher. A promessa do seu triunfo alcança os povos que a acolhem e o Brasil foi sob a sua proteção desde os primórdios da sua história. O país que se consagrou a ela carrega uma mediação maternal na própria identidade. Traí-la é renegar a própria origem. Por isso o momento exige mais do que nostalgia devocional. Exige conversão coletiva e coragem cívica.
O caminho de volta é o mesmo que nos trouxe até aqui. Foi pela Mãe que o Brasil nasceu católico e será por ela que retomará a vocação. Dom Pedro I, ainda príncipe, prometeu diante da imagem consagrar o país a Nossa Senhora da Conceição, na véspera dos passos que conduziram à Independência. Aquela figura pequena e quebrada, resgatada das águas do rio Paraíba, foi o instrumento humilde que Deus escolheu para tocar os corações dos brasileiros. Ele continua a usar meios humildes e fará de novo o mesmo. A pergunta que se coloca a cada um de nós é direta. De que lado estaremos quando esse triunfo se fizer visível. Nisso consiste a fidelidade e por aí começa a restauração.





Comentários