BIS pede ação urgente dos governos: dívida recorde, inflação e fragilidades financeiras ameaçam estabilidade global
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Banco de Compensações Internacionais identifica quatro vulnerabilidades principais; chefe do órgão pede redução dos níveis de endividamento e avisa que "a demora só tornará os ajustes mais dispendiosos"

O BIS (Bank for International Settlements), ou Banco de Compensações Internacionais, a mais antiga instituição financeira internacional — fundada em 1930 — publicou neste domingo seu Relatório Econômico Anual com uma mensagem de urgência dirigida a governos e bancos centrais: as pressões globais estão aumentando e a janela para agir com menor custo está se fechando. "Os formuladores de políticas devem agir agora. A demora só tornará os ajustes necessários mais dispendiosos", disse Pablo Hernández de Cos, gerente-geral do BIS.
O relatório identificou quatro pontos de pressão principais. O primeiro é a inflação em reascensão: o BIS alertou que interrupções mais frequentes no fornecimento de energia e commodities podem fazer com que expectativas de inflação mais elevadas se consolidem entre famílias e empresas, num processo de desancoragem que os bancos centrais terão dificuldade crescente de reverter quanto mais tarde agirem. "A principal mensagem que queremos transmitir é a prontidão para agir caso os bancos centrais observem que há ancoragem das expectativas de inflação", disse de Cos. O gerente-geral reconheceu que o cessar-fogo entre EUA e Irã e a reabertura do Estreito de Ormuz foram "boas notícias" que evitarão cenários extremos, mas advertiu que levará tempo para o mercado de petróleo se normalizar.
O segundo ponto é a incerteza sobre a sustentabilidade dos investimentos em inteligência artificial. Embora a IA tenha impulsionado a confiança e apoiado o crescimento por meio das expectativas de ganhos de produtividade, o BIS alertou que gargalos na cadeia de suprimentos e concorrência acirrada podem levar ao tipo de sobreinvestimento observado em ciclos anteriores de expansão e recessão, com riscos crescentes de um ajuste abrupto.
O terceiro ponto são as vulnerabilidades financeiras estruturais. A valorização elevada dos ativos e a complacência dos investidores tornaram os principais mercados de títulos mais frágeis, enquanto o boom da IA está cada vez mais dependente de dívidas e estruturas de financiamento complexas. O quarto e mais grave ponto é o nível recorde da dívida pública global, com mercados de dívida soberana dominados por grandes fundos de hedge altamente alavancados, criando o que o BIS chama de "um novo nexo entre estabilidade soberana e financeira." "A nova relação entre estabilidade fiscal e financeira pode significar quedas mais frequentes e acentuadas nos valores dos títulos soberanos", disse Frank Smets, chefe interino do departamento monetário do BIS, advertindo que tais oscilações poderiam apertar rapidamente as condições financeiras globais.
"A mensagem do BIS é de urgência em termos da necessidade de reduzir os níveis de endividamento nas principais economias, porque o fato é que hoje a dívida é alta e é financiada por meio de intermediários financeiros não bancários", disse de Cos. O relatório instou os formuladores de políticas a priorizarem a estabilidade de preços, garantirem a sustentabilidade fiscal, coordenarem a supervisão além do setor bancário e buscarem reformas estruturais.
Para o Brasil, que ocupa a última posição em competitividade global em múltiplas categorias, registra o maior juro real do mundo em 9,67% ao ano e acumula dívida bruta de 80,4% do PIB, o relatório do BIS é um espelho incômodo que reflete, em escala global, os mesmos desequilíbrios que o mercado doméstico já está cobrando em prêmios de risco crescentes.




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