Ibovespa desaba 13,88%, fecha a 176.608 pontos no pior dia em seis anos
Dólar vai a R$ 5,40, enquanto Trump diz que a eleição “parece ter sido fraudada” e o investidor estrangeiro, que domina o mercado, sai em massa

O Ibovespa fechou a segunda-feira (26) em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos, o menor nível desde 31 de agosto e o pior desempenho diário em seis anos, desde março de 2020. O volume financeiro foi de impressionantes R$ 115 bilhões. O índice perdeu cerca de 28,5 mil pontos desde sexta-feira, quando fechou a 205.082,56. No pior momento, a perda chegou a 17,34%, a 169.516,43 pontos, e nesse instante a queda foi a maior desde 21 de março de 1990, quando a bolsa caiu 22,27% depois do anúncio do Plano Collor. O circuit breaker, acionado na abertura, foi o primeiro desde a pandemia, e medido em dólar o índice chegou a perder quase 30% durante o pregão.
O massacre foi concentrado nos bancos. O Índice Financeiro despencou 22,48%. Entre os maiores, o Banco do Brasil desabou 29,33%, o Bradesco caiu 21,70% e o Itaú Unibanco, 13,66%, e o BTG Pactual chegou a cair 36% durante a sessão. A própria B3 (B3SA3) fechou o pregão em queda de 36,28%. A Petrobras, que com as duas classes de ações pesa cerca de 13,5% do índice, também fechou no vermelho: as preferenciais recuaram 8,18%, a R$ 53,88, e as ordinárias, 6,81%, a R$ 60,80. No fechamento preliminar, as maiores perdas do índice foram da Magazine Luiza e da Vamos, com quedas superiores a 55%. Só as exportadoras escaparam, impulsionadas pelo câmbio: a Vale subiu cerca de 4%, e Suzano e Embraer também avançaram. As ADRs de empresas brasileiras negociadas em Nova York chegaram a cair mais de 20% no pré-mercado.
No câmbio, o dólar fechou a cerca de R$ 5,40, alta superior a 8%, a maior variação percentual diária desde 13 de janeiro de 1999. Os juros futuros subiram em toda a curva, em até 182 pontos-base, e o Tesouro cancelou leilões. O movimento desfez a aposta de semanas na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que havia levado o Ibovespa perto da máxima histórica e o dólar para baixo de R$ 5, e confirma as projeções de bancos de investimento que antecipavam o Ibovespa na região dos 170 mil pontos e o dólar até 15% mais caro. O Morgan Stanley vê a possibilidade de a bolsa perder de 20% a 30% nas próximas semanas.
O mercado cobra a fatura de um governo que chega ao quarto mandato sem apresentar equipe econômica, sem plano fiscal e com as contas em desequilíbrio. O governo central acumula déficit primário de R$ 94,9 bilhões em oito meses de 2026, a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB, com projeção de 87% em 2027, o Prisma Fiscal já trabalha com rombo de R$ 53 bilhões neste ano, e o Brasil perdeu a posição de credor internacional depois de 19 anos. A inflação está em 4,62% em 12 meses, acima do teto da meta, e a Selic em 13,75% ao ano, entre as mais altas do mundo. Em plena campanha, o presidente anunciou o reajuste do Bolsa Família, o pacote de combustíveis, o Prospera MEI, com perdão de R$ 12,6 bilhões, e o remanejamento de R$ 20 bilhões do Orçamento de 2027, e o Congresso aprovou o fim da escala 6x1, com custo para as empresas que a Confederação Nacional da Indústria estima em até R$ 267,2 bilhões por ano.
Há ainda uma camada que não aparece nos balanços. A reação ocorre em conjuntura de contestação do próprio processo eleitoral, depois de uma prorrogação do horário de votação decidida na tarde do pleito por um ministro do STF que foi advogado do presidente e não integra a Justiça Eleitoral, num pleito em que todos os institutos apontavam o senador à frente. Flávio Bolsonaro não reconhece o resultado e pede a anulação, e o empresário Elon Musk, dono do X, afirmou que “a conta não fecha”. Nesta segunda-feira, o presidente Donald Trump disse que as eleições brasileiras parecem ter sido fraudadas.
"Pareceu terrível. Não tomei lados, mas pareceu como mais uma eleição fraudada, francamente. Foi uma péssima vista para o mundo. Assisti a eleição e pareceu muito corrupta.", disse o presidente americano.
O comentário foi feito depois do fechamento da B3 e ainda não está nos preços. O investidor estrangeiro, que responde por cerca de 60% da participação no mercado de ações e foi quem sustentou a alta de outubro, passa a precificar também o risco institucional, e a confiança no sistema eleitoral e no regime político tende a pesar sobre os ativos brasileiros nos próximos pregões.
O resultado das urnas, com 51,78% dos votos válidos para Lula e uma diferença de 4,4 milhões de votos, é rejeitado pela oposição e defendido pelo governo e pela Justiça Eleitoral, que lembram que a apuração foi concluída normalmente. A decisão do Federal Reserve, em 28 de outubro, e o Copom, em 4 de novembro, completam uma semana em que o mercado vai testar se a queda de segunda-feira foi o piso ou o início de um ajuste maior.





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