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Vorcaro afirma que grupo de Jaques Wagner recebia R$ 3 milhões por mês em propina

há 6 horas
4 min de leitura

Proposta de delação premiada entregue à PGR e à PF detalha esquema estruturado desde 2018 em torno do cartão Credcesta



O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou que o grupo político do senador Jaques Wagner (PT-BA) recebia R$ 3 milhões por mês em propina, segundo proposta de colaboração premiada apresentada pelo ex-banqueiro à Procuradoria-Geral da República e à Polícia Federal.


Vorcaro afirma não ter presenciado diretamente os pagamentos, dizendo ter tomado conhecimento do esquema por meio de seu ex-sócio Augusto Lima, o Guga Lima. Segundo o relato, cerca de R$ 2 milhões eram repassados via contrato entre o Master e a PKL One, empresa que explorava o Credcesta, cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos da Bahia, enquanto outro R$ 1 milhão seria pago diretamente em espécie.


O banqueiro afirma que o senador Jaques Wagner teria participação oculta na operação do cartão, com repasses estruturados por meio de distribuição de lucros e dividendos e contratos fictícios. O suposto esquema teria sido estabelecido em 2018, quando o Banco Master comprou participação na empresa responsável pelo Credcesta, produto criado no âmbito da Empresa Baiana de Alimentos, a Ebal. Segundo o documento, "o produto tinha acesso a um percentual da renda dos servidores públicos que as demais instituições financeiras não tinham acesso, tornando-o extremamente valioso".


A proposta de delação afirma que Augusto Lima "se uniu com políticos baianos para fraudar a privatização da Ebal, por meio do direcionamento do processo de leilão e do escamoteamento do produto Credcesta". O documento aponta o empresário Guilherme Henrique Sodré Martins, o Guiga — pai de um enteado do próprio Jaques Wagner — como operador do senador nessa articulação, tendo supostamente influenciado o processo de privatização.


A Ebal, estatal detentora da operação do Credcesta, foi vendida em leilão hoje investigado pela Polícia Federal sob suspeita de fraude e direcionamento à empresa de Augusto Lima. Na época, Jaques Wagner ocupava o cargo de secretário de governo da Bahia na gestão de Rui Costa (PT), hoje ministro da Casa Civil e candidato ao Senado. A NGV Empreendimentos arrematou a estatal por R$ 15 milhões; segundo Daniel Vorcaro, o verdadeiro dono da empresa era Augusto Lima, ainda que formalmente registrada em nome do investidor espanhol Ignácio Morales, descrito no documento como "interposta pessoa". Dezesseis dias após o leilão, dois decretos assinados por Rui Costa ampliaram as possibilidades de exploração do Credcesta e alteraram seu enquadramento no regime de consignações — decisão que precedeu a transferência dos direitos de exploração do cartão da NGV para a PKL One Participações.


A participação societária na PKL era estruturada por meio de uma cadeia de fundos de investimento. Segundo a proposta de delação, os beneficiários finais incluíam Augusto Lima, Guiga — representando Jaques Wagner, na versão de Vorcaro — e representantes de outros políticos. Documentos sobre cotistas de fundos obtidos pela CPI do Crime Organizado mostram que Guilherme Sodré detinha 22,45% do fundo Gardênia, com participação indireta na PKL One, até 31 de dezembro de 2018; a partir de maio de 2019, os registros e o relato de Vorcaro apontam migração dessa participação para um fundo da Entre Investimentos, empresa de Antônio Carlos Freixo Júnior — o mesmo delator já citado em outras frentes da investigação sobre o Banco Master. Vale ressaltar que os documentos confirmam a presença de Sodré na estrutura societária, mas não comprovam, por si só, que ele mantivesse a participação em nome de Wagner.


Na parceria firmada em 2018, o Banco Master pagou R$ 30 milhões à PKL e acertou divisão de metade dos lucros da operação. Segundo Daniel Vorcaro, foi durante essa negociação que Augusto Lima teria revelado o esquema: "Augusto Lima informou ao colaborador que precisou corromper os políticos baianos para adquirir a operação do Credcesta, razão pela qual cedeu a políticos participação societária na PKL", diz o documento. O contrato entre a PKL e o Master previa pagamento mensal de cerca de R$ 2 milhões "em valores livres de impostos", classificados como "despesas operacionais" — valores que, segundo Vorcaro, eram usados para pagar vantagens indevidas a políticos por meio de contratos fictícios de consultoria firmados com interpostas pessoas e empresas que forneciam dinheiro em espécie.


Com a expansão do Credcesta para outros estados, Daniel Vorcaro afirma ter decidido, junto com Augusto Lima, retirar Guiga da estrutura por considerar sua permanência um risco, transferindo a participação para a Entre Investimentos, de Freixo Júnior — contrato que o próprio ex-banqueiro classifica como fictício. Na ocasião, teria sido acertado pagamento mensal de R$ 1 milhão em espécie a Guiga, mantido até a liquidação do Master.


Segundo o relato de Vorcaro, o dinheiro vivo utilizado nesses repasses era obtido por meio de contratos com sobrepreço firmados com correspondentes bancários ligados a Augusto Lima, citando a Blue Pay — que devolveria a diferença a pessoas ligadas ao sócio — e a The Pay, que vendeu notas comerciais de R$ 80 milhões a fundos da Reag, gestora ligada ao Master, parte dos quais teria sido convertida em espécie. A entrega física dos valores era feita ao motorista de Vorcaro, "que não sabia do que se tratava, mas que repassava os pacotes ao colaborador ou a Augusto Lima", segundo o documento.


A proposta também menciona contratos que teriam beneficiado pessoas indicadas pelo senador Jaques Wagner, incluindo suposto acordo entre uma filha do senador e empresa no exterior ligada a João Carlos Falbo Mansur, dono da gestora Reag.


As defesas de Jaques Wagner e Augusto Lima refutaram as acusações, afirmando que a delação não apresenta provas suficientes para sustentá-las.



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