A carta dos bispos e o preço da confusão

A carta divulgada em 22 de outubro de 2026, dirigida ao “povo de Deus” sobre o segundo turno, revela um vício antigo de parte da hierarquia brasileira: a tentação de transformar autoridade espiritual em instrumento de preferência política. O texto não cita nomes, mas não precisa. O recado é transparente, e é exatamente essa transparência indireta que deve ser criticada.
Quem deseja orientar a consciência dos fiéis deve fazê-lo com clareza doutrinária e com responsabilidade pública. Quem orienta por insinuação esconde a própria posição atrás de um documento que parece magistério. A diferença não é de forma. É de honestidade.
A Doutrina Social da Igreja não é um cardápio de bandeiras partidárias. Ela ensina princípios: a dignidade inviolável da pessoa, o destino universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a participação. Esses princípios exigem juízo prudencial na aplicação concreta, e esse juízo cabe à consciência de cada católico. Quando um grupo de bispos afirma que uma candidatura ameaça “frontalmente” esses fundamentos sem demonstrar, ponto a ponto, como cada proposta contraria a doutrina, a fé deixa de formar o voto e passa a fornecer um veredito pronto. O fiel recebe a conclusão sem o caminho que deveria percorrer.
O texto afirma apontar “pontos de antagonismo” entre a Doutrina Social e uma candidatura, mas mistura princípios com fatos políticos sem separá-los. Diz que um candidato “fez parte de uma conspiração para taxar produtos brasileiros”, que “promete entregar nossas terras raras” e que “é publicamente favorável à tortura”. São acusações graves. Exigem datas, votações, declarações citadas com fonte e atos verificáveis. A carta oferece a conclusão, mas não a demonstração. Ao leitor cabe aceitar a palavra dos signatários ou procurar sozinho, e a Igreja não deveria pedir esse tipo de fé política.
Há também seletividade. A carta cobra coerência do partido de um candidato em relação aos programas sociais, invocando a Dilexi Te, mas não examina com o mesmo rigor a outra candidatura. Reconhece que ela “também está sujeita a críticas”, e ainda assim a recomenda sem dizer quais são essas críticas e porque não pesam. Um critério que vale para um lado e se dissolve no outro não é discernimento. Parece cálculo.
O documento usa com correção alguns princípios: o Compêndio condena o recurso à tortura, reconhece o perigo da proliferação de armas e a Centesimus Annus rejeita a usurpação do poder por grupos restritos. O problema começa na aplicação. Entre o princípio e o candidato existe um passo que a carta não dá. Afirmar que um governo, se eleito, “criará as condições para uma usurpação do poder” é um prognóstico político. Não é ensinamento de fé, e apresentá-lo com a autoridade do ofício episcopal confunde os dois planos. A própria tradição católica distingue o que é doutrina do que é juízo prudencial, e a carta apaga essa distinção.
A comparação com o totalitarismo europeu do século XX merece atenção especial. Ela é pesada, e pesadas são as memórias das vítimas do nazismo e do comunismo. Usar essa herança como metáfora para uma disputa eleitoral sem provar o paralelo empobrece a memória e torna a retórica mais barata. Quem invoca Auschwitz para disputar uma eleição precisa de mais do que adjetivos.
Chama atenção, ainda, o contraste entre o que a carta afirma e o que ela declara. Diz que é preciso “votar para fazer a diferença”, mas afirma que “um dos candidatos será o próximo presidente” independentemente do voto. Diz que “não podemos nos manter neutros” e, ao mesmo tempo, recorda que o católico deve decidir o voto “à luz” da DSI, o que pressupõe liberdade de consciência. Esses dois movimentos não se harmonizam. A Gaudium et Spes, no número 76, afirma que a Igreja não se confunde com a comunidade política. A carta sugere o contrário ao conduzir o voto como se a fé exigisse uma escolha.
Existe ainda um problema de representação. Os signatários dizem estar em comunhão com a CNBB, mas a própria Conferência esclareceu, um dia depois, que apenas a Assembleia Geral, o Conselho Permanente e a Presidência podem falar em seu nome. Bispos têm o direito de opinar como cidadãos e de votar como qualquer brasileiro. Não têm o direito de apresentar uma orientação de voto como se fosse posição da instituição.
Chama atenção também o que a carta não diz. Um documento tão extenso sobre a vida pública não trata do aborto nem da família, temas que a própria Igreja coloca no centro de sua doutrina social e moral. Quando a defesa da vida aparece apenas na forma de alusão, ela perde a força de princípio e passa a funcionar como argumento de conjuntura.
A responsabilidade de um bispo não se mede pelo número de assinaturas nem pela manchete que a carta produz. Mede-se pela fidelidade à fé e pelo cuidado com as almas. Os fiéis merecem doutrina clara, aplicada com honestidade a todos os lados, e liberdade para decidir em consciência. A verdade não precisa de cabos eleitorais de batina. Precisa de testemunhas que a sustentem com provas, humildade e coerência, mesmo quando isso custe prestígio.





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