A diplomacia do visto
- Carlos Dias
- há 10 horas
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A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti pelo governo Trump, em 4 de agosto de 2026, não constitui um incidente isolado. Representa o ato culminante de uma sequência deliberada de pressões que se acumulam desde meados de 2025 e que convergem num mesmo vetor: empregar instrumentos migratórios e comerciais como ferramentas de coerção política.
A medida possui uma singularidade técnica que afasta a interpretação de expulsão. A embaixadora Viotti não foi declarada persona non grata. Seu visto foi cancelado, o que a mantém em território americano, porém sem documento migratório válido. Se deixar os Estados Unidos, precisará de um novo visto para retornar. Essa distinção é calculada. Washington vinculou explicitamente a restauração do visto à aprovação do agrément de Daniel Perez, indicado para a embaixada em Brasília. A Casa Branca não busca o rompimento. Busca a concessão.
O contexto que antecedeu a medida é denso. Tarifas de 25% sobre produtos brasileiros em vigor desde 22 de julho. A designação unilateral do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, precedida por um encontro do Senador Flávio Bolsonaro com o presidente Trump na Casa Branca. A recusa brasileira em conceder vistos a dois funcionários do Departamento de Estado cuja missão sobre integridade eleitoral foi interpretada pelo Itamaraty como tentativa de ingerência no pleito presidencial de outubro. Cada um desses episódios, isoladamente, seria administrável. Em conjunto, compõem um quadro de erosão institucional sem paralelo na história bilateral.
Do lado americano, a doutrina America First opera com lógica transacional. A escolha de Daniel Perez, aliado político do presidente Trump e figura ligada ao eleitorado cubano-americano da Flórida, não é neutra. Sua nomeação, anunciada antes da consulta formal ao Brasil, violou o protocolo diplomático. A revogação do visto da embaixadora funciona como alavanca de pressão, mas também como mensagem política a aliados regionais e a um público interno nos Estados Unidos.
Do lado brasileiro, o governo do presidente Lula enfrenta um dilema com duas frentes. Ceder ao agrément seria interpretado por setores governistas e pelo Judiciário como capitulação diante de uma ingerência percebida. Não ceder prolonga a escalada e limita os canais de diálogo em temas de comércio e segurança. O Brasil anunciou reciprocidade. A forma que essa resposta assumirá determinará o próximo patamar da crise.
Um rompimento formal das relações é altamente improvável. Os fluxos econômicos bilaterais, o aparato consular em operação e a condicionalidade explícita da medida americana apontam para uma disputa dentro de parâmetros clássicos, não para uma ruptura. O risco real reside no plano de segurança. Se os Estados Unidos conduzirem operações contra organizações classificadas como terroristas em território brasileiro sem coordenação com Brasília, a crise migrará do campo diplomático para o da soberania. Aí os custos se tornam imprevisíveis e a gestão política da crise perderá controle.
O Visto da Embaixadora: Instrumento de Pressão e Vetor de Escalada
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