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Carrinho caro, dívidas e inadimplência: famílias brasileiras chegam ao limite


Ir ao supermercado deixou de ser uma tarefa rotineira para se tornar, para milhões de brasileiros, um exercício de matemática financeira sob pressão. Enquanto o governo comemora recordes de arrecadação, é dentro de casa — na conta do cartão, no boleto atrasado e no carrinho de compras cada vez mais enxuto — que o custo real da política econômica do terceiro mandato de Lula aparece com mais clareza.


A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, mostra que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho de 2026 — o maior índice já registrado pela série histórica e o sexto recorde mensal seguido. Um ano antes, em julho de 2025, esse percentual era de 78,5%. Em apenas doze meses, portanto, a proporção de famílias no vermelho cresceu 3,5 pontos percentuais, um salto que escancara a velocidade com que o aperto financeiro vem se espalhando pelos lares do país. Entre as famílias que ganham até três salários mínimos, 84,9% estão endividadas. É justamente quem tem menos margem para absorver um imprevisto que mais sofre com a bola de neve das dívidas.


Os números do Banco Central ajudam a explicar por que essa dívida cresce e não some: em junho de 2026, a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas chegou a 64% ao ano, o maior patamar em mais de doze meses. A inadimplência do sistema financeiro, por sua vez, está no nível mais alto desde o início da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011. Em maio, o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas atingiu 28,5%, e em julho a fatia de consumidores que gasta mais da metade do salário só para quitar compromissos financeiros cresceu 19%, o maior nível desde março. Diante desse cenário, cada vez mais brasileiros recorrem à própria reserva de emergência para sobreviver ao mês: em julho, a caderneta de poupança teve saque líquido de R$ 7,153 bilhões, o maior volume desde março e o segundo mês seguido em que os saques superaram os depósitos, somando R$ 46,509 bilhões retirados no acumulado do ano. Não é apenas migração para aplicações mais rentáveis — é o retrato de famílias esvaziando o colchão de segurança para sustentar o consumo básico em meio à inflação persistente. A gravidade do quadro fica ainda mais evidente quando se sabe que 47% dos brasileiros, segundo a pesquisa PoderData, sequer têm R$ 500 guardados para enfrentar uma emergência.


É essa mesma inflação persistente que encarece o carrinho de compras e corrói o poder de compra das famílias mês após mês. O Comitê de Política Monetária já projeta que o IPCA só deve convergir para a meta de 3% no primeiro trimestre de 2028 — um horizonte que se distancia a cada nova reunião do colegiado. Para 2026 e 2027, o mercado, segundo o boletim Focus, espera inflação de 5,02% e 4,22%, respectivamente, ambas acima do teto perseguido pelo Banco Central. Mesmo com o corte de 0,25 ponto percentual promovido pelo Copom em agosto, que levou a Selic a 14% ao ano — o quarto corte seguido —, o juro real brasileiro segue em torno de 8,98% ao ano, um dos mais altos do mundo. O próprio Banco Central reconhece riscos de alta acima do usual, entre eles novos choques de oferta ligados ao petróleo e a fenômenos climáticos como o El Niño, que ameaçam pressionar ainda mais os preços de alimentos e energia.


Esse mesmo ambiente de juros elevados e crédito caro não pressiona só o orçamento doméstico — encarece também o capital de giro e o financiamento das empresas brasileiras, que competem pelo crédito disponível nas mesmas condições de uma economia com Selic de dois dígitos e juro real entre os maiores do planeta. Negócios que dependem de crédito para operar ou investir enfrentam um custo de capital que dificulta a manutenção de empregos e a expansão da produção, num momento em que a demanda das famílias já está estrangulada pelo próprio endividamento.


Esse quadro doméstico não está isolado do desempenho fiscal do governo. No primeiro semestre de 2026, as contas públicas fecharam com déficit primário de R$ 92,98 bilhões e déficit nominal de R$ 624,1 bilhões, mesmo com arrecadação federal recorde de R$ 2,94 trilhões no período. A dívida pública federal chegou a R$ 9,268 trilhões em junho, com alta mensal de 2,61%, e a dívida bruta do governo geral, pela metodologia do FMI, deve saltar de 83,9% do PIB em 2022 para 96,5% ao fim de 2026 — o segundo maior crescimento de endividamento entre os países do G20 no período, atrás apenas da China.


Endividamento familiar recorde, inadimplência no nível mais alto desde 2011, poupança sendo consumida para sustentar o básico e uma inflação que resiste a ceder mesmo após anos de juros elevados: a combinação desses fatores coloca o Brasil diante de um risco que vai além das estatísticas. É o risco de uma economia em que o consumo das famílias perde fôlego justamente porque quem precisa consumir está ocupado demais pagando dívidas, enquanto as empresas que empregam essas mesmas famílias enfrentam o mesmo crédito caro para tentar se manter de pé. Sem uma reversão desse quadro, o desgaste tende a se aprofundar nos próximos anos.



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