A rota do capital em um governo Flávio Bolsonaro

O pregão de 5 de outubro respondeu às urnas com uma clareza incomum. O Ibovespa avançou mais de 9% durante a sessão, rompeu a marca inédita dos 209 mil pontos e registrou a maior alta diária em mais de seis anos. O dólar comercial cedeu de R$ 5,22 para R$ 4,95, com queda superior a 4%, enquanto os juros futuros desabaram e os fundos que replicam a bolsa brasileira em Nova York e Tóquio saltaram cerca de 10%. Esse movimento não foi ruído. Foi o reajuste da probabilidade de um regime fiscal distinto, embalado por uma margem de 2,2 milhões de votos favorável a Flávio Bolsonaro e por um Congresso com avanço expressivo de forças de centro-direita.
Há um componente externo favorável no pano de fundo. A criação de empregos nos Estados Unidos veio fraca, com 29 mil vagas e desemprego em 4,2%, o que reduz a pressão por alta dos juros do Federal Reserve e enfraquece o dólar global, condição que historicamente alimenta o apetite por emergentes. Sobre esse solo, o gatilho doméstico operou com força. O investidor estrangeiro havia saído do Brasil ao longo do ano por insegurança jurídica e atrito institucional. A possibilidade de um governo disposto a cortar ministérios, rever a tributação, privatizar ativos e endurecer a regra de gastos inverteu o sinal do fluxo.
O mercado não compra discurso, compra regra. As casas internacionais respondem à cartilha do chamado “tesouraço”, que prevê corte de despesas obrigatórias, superávit primário considerado confiável e uma âncora fiscal mais rígida. O UBS fala em ajuste profundo e duradouro, e o Morgan Stanley projeta potencial de alta expressiva, com estimativas de 30% a 45% para o índice em cenários de vitória. O ponto de partida explica o tamanho da aposta. Com a Selic em 13,75%, inflação em torno de 4,2% e nove em cada dez reais do Orçamento de 2027 já comprometidos, o custo de capital brasileiro embute um prêmio soberano elevado. A dívida pública, em 82,9% do PIB, deixou há muito a faixa considerada prudente, que considero entre 70% e 75% do produto interno bruto. Somente a contenção do endividamento devolve credibilidade à moeda e reduz o custo de capital de toda a economia. Cada sinal crível nessa direção derruba a taxa básica esperada, e é exatamente isso que eleva o valor presente de toda a renda variável.
Confirmada a vitória em 25 de outubro, o primeiro movimento deve ser a recomposição das carteiras globais. Fundos de índice, carteiras de mercados emergentes e investidores de realocação tática retornam ao país com a velocidade com que saíram. Depois vêm as operações de maior permanência. A reabertura da janela de emissões de ações, o ressurgimento das ofertas públicas iniciais, o fluxo de fusões e aquisições e a disputa por ativos de infraestrutura e energia privatizáveis. O investidor estrangeiro enxerga nas privatizações a redenção de capital parado em estatais e a redução do peso do Estado sobre a formação de preços. Bancos, seguradoras e utilities tendem a liderar o movimento por serem os primeiros a capturar a queda dos juros, enquanto o varejo cíclico e as incorporadoras dependem da recomposição do crédito. A renda fixa também volta a atrair capital pela combinação de juro real elevado e risco decrescente, e o real tende a receber fluxos ancorados no diferencial de juros.
Esse fluxo, porém, não é automático nem imediato. Até o segundo turno, as posições carregam proteção contra a hipótese de reversão. Mesmo depois da confirmação, a entrada definitiva de capital obedece a um exame de governabilidade, da composição da equipe econômica e da primeira proposta orçamentária. O capital externo recompõe posição em duas etapas, primeiro com a arbitragem do risco político, depois com a confirmação dos fundamentos.
O investidor doméstico opera com o mesmo mapa, porém com maior exposição prévia e memória mais curta. Os fundos multimercado vinham pagando caro por proteção cambial e de juros, e a queda simultânea do dólar e da curva devolve eficiência às carteiras e libera espaço para risco. As famílias, via corretoras e fundos, tendem a migrar da renda fixa para a renda variável na medida em que a Selic prospectiva recua, e o mercado de capitais volta a atrair ofertas de varejo. Fundos de pensão e seguradoras, pressionados por passivos de longo prazo, são os maiores beneficiários estruturais de uma curva de juros mais baixa.
O risco desse lado é a euforia substituir a análise. O investidor interno costuma chegar tarde ao ciclo e pagar caro por convicção. A disciplina da margem de segurança, a busca por geração de caixa previsível e a aversão a empresas dependentes de privilégio estatal permanecem como filtros, mesmo em ambiente de reajuste favorável.
A confirmação da vitória abre uma janela de reclassificação de risco, não uma garantia de bonança. O rali se mantém se a agenda encontrar lastro no Congresso, se a independência do Banco Central for preservada e se as privatizações ocorrerem sem patrimonialismo, com regras claras e preços de mercado. Há ainda o risco clássico de comprar o boato e vender o fato, sobretudo se as pesquisas apertarem nas semanas finais. O investidor que age com rigor compra parte do movimento na confirmação eleitoral e reserva capital para a execução fiscal do primeiro ano. O que o pregão de 5 de outubro mostrou é que o Brasil segue sendo um mercado de expectativas, e a expectativa voltou a favor do capital produtivo e da liberdade econômica.





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