O preço da continuidade de Lula

O Boletim Focus de 25 de setembro de 2026 fecha o quadro antes das eleições de outubro. O mercado projeta inflação de 4,99% para 2026, acima do teto da meta, e de 4,31% para 2027, longe dos 3% prometidos. O PIB cresceria apenas 1,86% neste ano e 1,41% em 2027. A Selic terminaria 2026 em 13,50% e só chegaria a 12% ao fim de 2027. O resultado primário permanece negativo, em torno de 0,41% do PIB, e o resultado nominal fica em 8,90% do PIB no vermelho. O déficit em transações correntes alcança US$ 60 bilhões. Mas é no endividamento que o quadro escancara sua gravidade. As projeções do Fundo Monetário Internacional, atualizadas em 2026, indicam a dívida bruta do governo geral subindo de 93,3% do PIB em 2025 para 96,5% em 2026, atingindo a marca de 100% do PIB em 2027, o primeiro ano do próximo mandato, e indo a 102,3% em 2028, com projeção de 106,5% até 2031. Não é um quadro de crise aguda, e sim de deterioração lenta, metódica e cumulativa, o tipo de deterioração que não aparece nas manchetes e aparece na vida das pessoas.
O Relatório de Política Monetária do terceiro trimestre já havia dado nome ao fenômeno. Estagflação em formação, com probabilidade de 90% de o IPCA furar o teto no último trimestre e a taxa de consumo real das famílias revisado de 2,1% para 1,2%. O Copom cortou juros pela quinta vez consecutiva, para 13,75%, com inflação acima da meta, e o próprio relatório registrou o motivo profundo dessa contradição. Enquanto o crédito livre desacelera sob o efeito dos juros, o crédito direcionado expande, financiado por fundos garantidores do Estado, na direção oposta da política monetária. O Banco Central restringe o mercado e o Tesouro expande o subsídio. Isso tem nome na literatura econômica. Chama-se dominância fiscal, e o Brasil a vive sem que a expressão seja pronunciada oficialmente.
A pergunta que o leitor faz é o que acontece com esse quadro caso Lula vença em outubro. A resposta honesta exige separar fatos, inferências e juízos, e é isso que farei.
O primeiro ponto é que a vitória eleitoral não cria o problema, ela o cristaliza. O desequilíbrio fiscal e a expansão do crédito subsidiado já estão em curso. O que uma vitória do atual governo muda é a expectativa de continuidade e de intensificação. O programa de governo em execução combina aumento permanente de despesa obrigatória, valorização real do salário-mínimo acima da produtividade, expansão de gastos sociais sem contrapartida de eficiência e uso de bancos públicos e fundos garantidores como máquina de crédito dirigido. Nenhum desses instrumentos será desmontado por quem os criou. Ao contrário, a lógica do segundo mandato, em qualquer governo que já tenha exercido o poder por oito anos, tende a ser a de consolidar o legado, e o legado aqui é a expansão do Estado sobre a alocação de capital.
O segundo ponto é a trajetória da dívida. O FMI diz o essencial sem dizer nada sobre política. O fundo projeta a dívida bruta do governo geral derrotando, em 2027, a fronteira psicológica de 100% do PIB, mais de nove pontos percentuais acima do nível de 2025, sem choque externo, sem recessão e sem desvalorização cambial relevante, o câmbio é projetado em torno de 5,20. Vale anotar, em rigor metodológico, que o FMI mede a dívida bruta do governo geral, conceito mais amplo que a dívida líquida do setor público acompanhada pelo mercado, e que por isso mesmo os números do fundo colocam o Brasil à frente da média global, que só chega a 100% do PIB em 2029. Essa é a parte inquietante do quadro. A piora projetada ocorre em cenário benigno. Se qualquer um dos fatores se inverter, câmbio, juros externos ou atividade, a trajetória acelera. Com resultado nominal de quase 9% do PIB e juros de dois dígitos, o país entra na espiral clássica em que a dívida cresce pela própria folha de juros. Ludwig von Mises ensinou que a inflação é uma política fiscal disfarçada de fenômeno monetário, e Hayek mostrou que a expansão creditícia estatal distorce a estrutura de produção e termina em contração. O Brasil está executando, em tempo real, o roteiro dos dois autores.
O terceiro ponto é a autonomia do Banco Central. O regime de metas sobrevive formalmente, mas o Focus revela que o mercado projeta o descumprimento da meta com naturalidade e ainda assim espera cortes de juros, a Selic caindo para 12% em 2027 com inflação acima de 4,3%. Isso significa que o mercado não acredita que o Banco Central possa segurar a política monetária contra o vento fiscal. Em um segundo mandato, a pressão por juros menores, por flexibilização do arcabouço fiscal e por reformulação do regime de metas tende a crescer, especialmente com a indicação de novos dirigentes para a diretoria e para o Copom. Na síntese do pensamento de Ubiratan Iorio, em Economia e Liberdade (1997) e em “A dominância fiscal” (Revista Oeste, 27/12/2024), a manipulação do juro converte a política monetária em apêndice da política fiscal. A experiência brasileira confirma a advertência.
O quarto ponto é a carga tributária e o arranjo produtivo. A receita do Estado para financiar a despesa crescente já vem sendo buscada em três frentes, o aumento de alíquotas e criação de tributos, o fim de benefícios fiscais setoriais e a tributação de rendas e patrimônios. A lógica de fundo é a de que o problema é a arrecadação insuficiente, quando o diagnóstico correto é o de despesa excessiva e improdutiva. O Brasil gasta mais de 20% do PIB apenas em benefícios previdenciários e assistenciais, boa parte dissociada de contribuição prévia, e a produção de bens públicos essenciais, segurança, justiça, infraestrutura básica, funciona mal. Michael Novak descreveu o fenômeno como a terceira via que na prática produz o pior dos mundos, empresa sem lucro, Estado sem disciplina e trabalhador sem renda. O rótulo é brasileiro.
O quinto ponto é geopolítico e merece atenção especial de quem lê esse artigo. Um segundo mandato aprofundará a opção por um modelo de desenvolvimento estatal e dirigista, com ampliação do papel de estatais em energia, mineração e infraestrutura, aproximação com blocos que disputam a hegemonia global contra o Ocidente e resistência à abertura comercial. Há um elemento legítimo nessa agenda, a defesa de interesses nacionais em minerais estratégicos e na Amazônia é pauta real e sou o primeiro a reconhecer a importância geopolítica desses ativos. O problema é o meio escolhido. Capacidade estratégica não se constrói com subsídio e direcionamento de crédito, e sim com segurança jurídica, propriedade definida, poupança autônoma e preços livres, sem os quais o capital se afasta e o que fica é o Estado pagando a conta com papel moeda. O déficit externo de US$ 60 bilhões mostra exatamente isso, o país consome e investe acima do que produz, financiado por quem ainda acredita nele.
As objeções merecem resposta. Dirão que o crescimento de 1,4% projetado para 2027 mostra que a economia precisa de estímulo, e não de ajuste. A resposta é que o estímulo já foi dado, e o resultado é inflação de 5% com crescimento de 1,8%, o pior dos dois mundos. Dirão que uma dívida no entorno de 95% do PIB é administrável, como foi durante anos. A resposta é que o que interessa em finanças públicas é a derivada, não o nível, e a derivada aponta para 100% já no primeiro ano do próximo governo, com primário negativo e folha de juros se autorrefinanciando. Dirão que o Banco Central é responsável pela inflação alta. O juro é consequência, não causa, e a causa tem endereço no Congresso Nacional e no Planalto.
A leitura final é esta. A vitória de Lula em outubro não inauguraria a crise, consolidaria o modelo que produz a crise, e o FMI já precifica parte disso ao projetar a dívida em 100% do PIB em 2027 e a inflação de 4,31% para o mesmo ano. O remédio conhecido passa por contenção real de despesa, fim da expansão do crédito direcionado, defesa da autonomia monetária e reformas que devolvam à poupança privada o papel de financiar o investimento. Nada disso está na mesa caso Lula vença.





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