Bradesco BBI diz que a queda da Bolsa pode não ter acabado e que a recuperação costuma levar meses ou até anos
Banco afirma que o tombo de 18,7% do MSCI Brazil em dólar foi o maior da história moderna, supera 2008 e a pandemia

A queda da Bolsa brasileira depois do segundo turno pode não ter chegado ao fim, segundo o Bradesco BBI, que recomenda cautela aos investidores. Em relatório divulgado nesta sexta-feira (30), os estrategistas do banco afirmam que a experiência histórica mostra que a recuperação depois de choques dessa dimensão costuma levar meses, e em alguns casos anos, para se consolidar.
O documento destaca que a queda de 18,7% do MSCI Brazil em dólar, na segunda-feira (26), foi a maior baixa diária da história moderna do mercado brasileiro, superior à da crise financeira de 2008, e à do choque da pandemia de Covid-19. Além da intensidade, o banco chama atenção para a rotação dentro do mercado: as empresas mais sensíveis a juros sofreram perdas pesadas, enquanto investidores migraram para exportadoras, companhias dolarizadas e ativos defensivos, e a dispersão de retornos entre as ações do Ibovespa foi a maior já registrada.
O levantamento mostra que o mercado brasileiro teve 18 quedas de um único dia superiores a 10% desde o início da década de 1990. Em média, foram necessários cerca de três meses para os índices recuperarem as perdas iniciais. Quando a análise se amplia para os mercados emergentes, o histórico é menos animador. O banco examinou 15 episódios de eleições que provocaram forte reação negativa dos investidores em países emergentes nas últimas duas décadas, e o tombo brasileiro aparece como o segundo pior da amostra, atrás apenas da queda de 40% da Argentina depois das primárias de 2019, que marcaram a derrota de Mauricio Macri. Nesses casos, os mercados estavam, em média, 11% abaixo dos níveis anteriores três meses depois do choque e permaneciam no negativo mesmo seis meses depois. Em muitos casos, a recuperação relevante ocorreu apenas cerca de dois anos mais tarde.
O principal desafio, segundo o BBI, será ajustar as projeções de lucro ao novo ambiente de juros. A reprecificação recente da curva ainda não foi totalmente incorporada às estimativas do mercado, e o banco calcula que 74 das 106 empresas sob sua cobertura podem sofrer revisões negativas de lucro se a nova trajetória da Selic se mantiver. O MSCI Brazil negocia a menos de oito vezes o lucro, o segundo múltiplo mais baixo do mundo, atrás apenas da Coreia do Sul, o que torna as ações baratas, mas, na avaliação do banco, não suficiente para sustentar uma recuperação imediata. O BBI mantém a recomendação neutra para o Brasil, que adotou na segunda-feira, depois de um rali de cerca de 13% do índice em dólares em outubro, e continua privilegiando carteiras defensivas, com exportadoras e empresas dolarizadas.
A avaliação reforça o que se vê nos preços. O Ibovespa fechou a quinta-feira (29) em queda de 1,06%, a 169.186 pontos, a quarta baixa seguida, e acumula perda de 17,5% desde a véspera do segundo turno. O CDS de cinco anos, que mede o risco de calote do país, subiu 26%, o Citi e a BCA Research rebaixaram os ativos brasileiros, e a Instituição Fiscal Independente, do Senado, elevou a projeção da dívida bruta para 124,4% do PIB em 2036.





Comentários