Dossiê Moraes-Vorcaro: tudo o que se sabe até agora sobre a relação entre o ministro do STF e o dono do Banco Master
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Levantamento reúne edição de contrato de R$ 131 milhões, segundo acordo de R$ 50 milhões pago com jato e helicóptero, cartões de crédito para os filhos do magistrado, ao menos 6 encontros presenciais, organização conjunta de evento em Londres, mensagens em que o banqueiro pede ajuda para não ser preso e estrutura de derrubada de reportagens

Uma avalanche de revelações sobre a relação entre o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, veio à tona nesta terça-feira (1º) após o ministro André Mendonça, relator do caso Master na Corte, retirar o sigilo de um extenso material colhido pela Polícia Federal no celular de Vorcaro. O conjunto de documentos e mensagens, disperso em dezenas de reportagens ao longo do dia, revela uma teia de contratos milionários, encontros não divulgados publicamente, benefícios a familiares do ministro e uma aparente tentativa de obter informações privilegiadas sobre o andamento da própria investigação que levou à prisão do banqueiro. A seguir, o compilado completo do que se sabe até o momento.
O contrato de R$ 131 milhões editado pelo próprio Moraes
O escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, firmou em janeiro de 2024 contrato de prestação de serviços jurídicos com o Banco Master no valor bruto de R$ 131.274.351,72, dividido em 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos (R$ 3.646.529,77 com impostos). Segundo levantamento do Estadão sobre metadados do arquivo extraído do celular de Vorcaro, a versão final do contrato foi aberta e alterada no sistema Office 365 associado ao perfil "Ministro Alexandre de Moraes" às 23h04 de 15 de janeiro de 2024 — cerca de uma hora e quarenta minutos depois de o próprio Vorcaro devolver o documento com uma cláusula revisada. O autor original do arquivo era Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório de Viviane.
A troca de mensagens entre Viviane e Vorcaro documenta toda a negociação: da minuta inicial, enviada em 11 de janeiro, passando pela inclusão da cláusula I.3 por Vorcaro em 15 de janeiro, até o pedido de Viviane, cinco dias depois, para que a assinatura ocorresse por meio de vias físicas remetidas em "envelope lacrado e confidencial" ao endereço do escritório, na Rua Campos Bicudo, no Itaim Bibi. O contrato foi assinado por Vorcaro em 23 de janeiro de 2024. Os pagamentos começaram em fevereiro daquele ano, e documentos enviados à CPI do Crime Organizado do Senado mostram que o Master efetuou 22 parcelas ao escritório entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, somando R$ 80.223.653,84 — interrompidos apenas após a prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025.
Diante das revelações, o escritório de Viviane emitiu nota confirmando que o ministro foi de fato consultado sobre o contrato, mas atribuiu a consulta ao setor de compliance da banca, que teria buscado Moraes "na condição de marido da sócia diretora" para verificar eventuais impedimentos legais, como processos de relatoria do ministro envolvendo o Master. Segundo a nota, como o ministro Alexandre de Moraes nunca julgou qualquer causa do banco, não haveria impedimento e o contrato teria sido assinado normalmente.
Segundo contrato, de R$ 50 milhões, pago com cotas de jato e helicóptero
Paralelamente ao contrato original, o escritório Barci de Moraes firmou, em maio de 2025, um segundo acordo com a Viking Participações, holding patrimonial de Daniel Vorcaro, prevendo remuneração de até R$ 50 milhões ao longo de 36 meses — mas com uma particularidade que despertou forte suspeita dos investigadores: o pagamento poderia ser feito não apenas por transferência bancária, mas também mediante dação em bens móveis, imóveis ou serviços. Na prática, o instrumento envolveu a transferência de cotas de duas empresas patrimoniais ligadas a aeronaves de luxo controladas por Vorcaro: a Fraction 024 (F24), dona de um jato executivo Legacy 650 avaliado em US$ 5.512.951,89, e a Fraction 053 (F53), vinculada a um helicóptero Airbus EC155 B1, cuja cota valia US$ 1.335.014,01.
Mensagens entre Vorcaro e seu advogado Leonardo Palhares, em maio de 2025, mostram a elaboração de duas minutas alternativas — uma com transferência imediata das cotas e opção de recompra por R$ 1 caso o contrato não fosse cumprido, outra com entrega dos ativos apenas após a execução do serviço. Palhares chegou a alertar sobre o "risco reputacional" de deixar "não sabemos quem" usando ativos ainda em nome de Vorcaro, sugerindo a transferência imediata para reduzir exposição. Vorcaro foi taxativo: "os ativos são deles… já." A Polícia Federal suspeita, sem ainda ter concluído a apuração, que esse segundo contrato tenha sido estruturado apenas para disfarçar como honorários advocatícios o repasse de bens de luxo — já que a prestação de serviços prevista nesse segundo acordo ocorreria, em tese, simultaneamente à do primeiro contrato, o de R$ 131 milhões.
Mensagens posteriores à assinatura reforçam a suspeita: em julho de 2025, Daniel Vorcaro cobrou de um sócio se as aeronaves já estavam sendo usadas, recebendo a confirmação de que "já usaram aviões e helicópteros". Um funcionário chegou a repassar a Vorcaro um print de conversa com a própria Viviane, que respondeu estar satisfeita com o uso das cotas: "Sim, estamos gostando muito." Em julho, uma funcionária do setor financeiro cobrou de Vorcaro o pagamento de fatura de R$ 22.815.120,95 emitida pelo escritório de Viviane em nome da Viking. Em outra mensagem sobre o primeiro contrato, Vorcaro chegou a instruir que os pagamentos ao escritório fossem tratados como prioridade absoluta: "Pode pagar sempre, sem nota", "do jeito que for", classificando-os como "o mais importante que temos".
Cartões de crédito de R$ 300 mil para os filhos do ministro
Em outubro de 2025, Daniel Vorcaro autorizou a emissão de dois cartões de crédito do Banco Master para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos do ministro, com limite de R$ 300 mil cada — R$ 600 mil ao todo. O pedido partiu de Guilherme Benazzi, administrador do escritório de Viviane, que buscou diretamente um contato dentro do banco para viabilizar a operação. Repassado o pedido a uma executiva da instituição, a confirmação de Vorcaro foi de apenas uma palavra: "Ok."
Ao menos seis encontros presenciais entre Moraes e Vorcaro
A Polícia Federal identificou indícios de pelo menos seis encontros pessoais entre o ministro e o banqueiro entre novembro de 2024 e agosto de 2025, com um possível sétimo ainda não confirmado. As mensagens mostram Vorcaro informando a diferentes interlocutores — familiares, funcionários, até um diretor do Banco Central — que estava "com Moraes" em datas específicas: 15 de novembro de 2024, 19 de março de 2025 (encontro que, segundo o contexto das mensagens, pode ter durado mais de quatro horas), 19 de abril, 29 de abril, 21 de maio e 8 de agosto de 2025. Um dos encontros teria ocorrido em Campos do Jordão, durante feriado. Um possível sétimo encontro, em 26 de maio, incluiria um jantar com as esposas de Vorcaro e do ex-ministro Fábio Faria, mas a PF não confirmou sua ocorrência.
Evento em Londres organizado com participação direta de Moraes
Entre 24 e 27 de abril de 2024, Daniel Vorcaro patrocinou um fórum jurídico-político em Londres com participação ativa do ministro na organização. Mensagens mostram Fábio Faria, intermediário da relação entre os dois, marcando reunião "na casa do Alexandre" antes da viagem, e funcionários de Vorcaro discutindo o transporte dos ministros do STF considerados "mais sensíveis", citando nominalmente "Alexandre, Toffoli, etc." Vorcaro chegou a descrever a Luiz Rennó um "evento super exclusivo com alexandre de moraes em londres", tratado com sigilo, inclusive evitando convidar quem "não se dá" com o ministro. As mensagens indicam ainda que Moraes participou da curadoria de convidados — vetando um deles, segundo confirmação do próprio Vorcaro a Fábio Faria — e sugeriu a participação do ex-presidente Michel Temer num dos painéis. Há também registro de que o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair se reuniu privadamente, antes de um debate público, com os ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, encontro que Vorcaro pediu que fosse mencionado por um jornalista.
Paulo Gonet: uísque, viagens e "gratidão"
O material também revela proximidade entre Daniel Vorcaro e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, intermediada pelo advogado do Master, Ciro Soares. Em março de 2025, mensagens mostram Gonet manifestando saudade do banqueiro e ansiedade por uma degustação de uísque Macallan em Londres ("Oba!!!! Tomara que tenha charuto e macalan"), evento que também contou com a presença do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Soares perguntou ainda se o filho de Gonet, Pedro Gonet, poderia integrar o grupo da viagem; a resposta de Vorcaro foi "óbvio, né?". A defesa de Pedro Gonet nega ter recebido o convite e afirma que ele não visita Londres desde 2019. Em 2024, evento semelhante já havia reunido Gonet, Moraes e Andrei Rodrigues; a edição de 2025 do fórum acabou cancelada.
Pedidos explícitos de "proteção" antes da prisão
Uma das partes mais graves do material diz respeito às mensagens trocadas por Vorcaro pouco antes de sua prisão, em que ele buscava tanto informações privilegiadas sobre o avanço da Operação Compliance Zero quanto intervenção para conter as investigações. Já em 4 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro perguntou ao ministro Alexandre de Moraes se uma medida "média a grave" seria busca ou quebra de sigilo, pediu que o magistrado atuasse junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral Paulo Gonet, e alertou que qualquer medida contra ele inviabilizaria a venda do banco então em curso: "Se conseguem medida contra agora, vai tudo por água abaixo." Horas depois, insistiu: "Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade [...] uma medida drástica agora literalmente quebra o banco de modo irreversível."
Nos dias seguintes, a insistência aumentou. Em 6 de novembro, perguntou em sequência: "Conseguiu bloquear a maldade? Isso é Brasília? Sabe o tema? Está seguro ou tem que entrar agora urgente?" Em 15 de novembro, dois dias antes da prisão, questionou diretamente se deveria deixar o país já na segunda-feira seguinte, e also perguntou sobre o juiz responsável pelo caso e se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já sabia do que estava por vir.
Em 16 de novembro, na véspera da prisão, voltou a perguntar se havia "alguma chance disso acontecer amanhã de manhã" — a ordem de prisão preventiva seria, de fato, assinada às 15h29 do dia seguinte pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite. Na mesma data, também pediu que o ministro Moraes tentasse viabilizar uma reunião sua com Gabriel Galípolo para "apresentar o que vamos protocolar essa semana" e evitar que "estourasse uma bomba atômica na hora da solução". Na madrugada seguinte, às 0h49, escreveu em tom de desespero: "Muita sacanagem isso. Estou perplexo e indignado. Esses caras vão destruir todo o negócio e sem volta [...] Temos que dar um jeito de desarmar isso, meu Deus."
Poucos minutos antes de ser preso no Aeroporto de Guarulhos, às 23h48 de 17 de novembro, ao tentar embarcar rumo a Dubai, Daniel Vorcaro ainda enviou ao ministro Alexandre de Moraes a mensagem: "To indo assinar com os investidores de fora e estou online." No dia seguinte, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero e o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. Três dias antes da prisão, em 14 de novembro, Vorcaro havia escrito ao ministro em tom de gratidão: "Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo e com a sua família."
Todas essas trocas com o ministro Moraes foram enviadas em modo de visualização única, via capturas de tela de textos redigidos no aplicativo de Notas — método que permitiu à PF recuperar o que Vorcaro enviava, mas não as respostas do ministro, já apagadas automaticamente.
"Sicário": estrutura para derrubar reportagens negativas
O material também expõe uma frente paralela de atuação do grupo de Vorcaro voltada à imprensa. Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apelidado "Sicário" nas conversas, era o responsável por conseguir a remoção de reportagens sobre o Banco Master e sobre o contrato com o escritório de Viviane Barci de Moraes. Em abril de 2025, Sicário informou a Daniel Vorcaro a derrubada de matérias sobre o próprio contrato de R$ 129 milhões e sobre a tentativa de aquisição do Master pelo BRB — "Mais dois links derrubados". Segundo a PF, a estrutura ia além da remoção de conteúdo, incluindo inserção coordenada de comentários favoráveis ao banco, manipulação de avaliações em aplicativos, negociações financeiras com veículos e jornalistas para publicação de conteúdo positivo, propostas de até R$ 2 milhões a influenciadores para divulgar mensagens favoráveis ao Master e questionar a atuação do Banco Central na liquidação, além do uso de informações obtidas ilicitamente para intimidar quem recusasse as vantagens oferecidas. Sicário morreu em 6 de março, dois dias após sua prisão. Segundo a Polícia Federal, a morte foi decorrente de suicídio.
Mendonça leva o caso ao plenário do STF: episódio inédito
Diante do conjunto de elementos, o ministro André Mendonça decidiu submeter a análise dos novos indícios envolvendo o ministro Alexandre de Moraes ao plenário do Supremo Tribunal Federal, abrindo caminho para uma possível investigação formal contra um ministro da Corte por corrupção e obstrução de justiça — situação sem precedentes na história do tribunal. Em despacho, o ministro Mendonça afirmou que "o caminho inevitável dos presentes autos leva ao Plenário deste Supremo Tribunal Federal, instância soberana para analisar, de modo técnico e estritamente jurídico, os novos elementos trazidos pela autoridade policial." Segundo sua análise, o ministro Moraes integraria a "rede de influência e monitoramento gerenciada por Daniel Bueno Vorcaro" e teria obtido acesso antecipado a informações sobre investigações criminais e apurações do Banco Central. Mendonça também pediu que a deliberação do plenário ocorra "de forma pública e transparente, em sessão presencial do Colegiado", dada a sensibilidade do tema. A data da sessão ainda será marcada pelo presidente do STF, Edson Fachin.
Na segunda-feira (31), um dia antes da divulgação em massa desse material, o ministro André Mendonça já havia determinado que o procurador-geral Paulo Gonet se manifestasse sobre o relatório policial, concedendo-lhe prazo de cinco dias para prestar esclarecimentos. Vale registrar que, em junho deste ano, o próprio Gonet havia rejeitado uma segunda proposta de delação premiada apresentada por Vorcaro, sob a justificativa de que o material oferecido não trazia elementos novos suficientes — decisão que, à luz das revelações desta terça-feira sobre a proximidade entre os dois, ganha contornos adicionais de escrutínio público. Para que um ministro do STF seja formalmente investigado, é necessária autorização do próprio plenário da Corte.




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