Governo reduz projeção do déficit das estatais para R$ 95 milhões com malabarismo contábil; número real é R$ 13,6 bilhões
Executivo exclui R$ 15 bilhões das contas para fazer o rombo "desaparecer" no papel; Correios sozinhos devem acumular déficit de R$ 7,4 bilhões em 2026

O governo federal divulgou na sexta-feira (24) o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias do terceiro bimestre com uma façanha contábil digna de nota: o déficit primário das empresas estatais em 2026 foi reduzido, nos documentos oficiais, de R$ 1,362 bilhão para R$ 95,1 milhões. Parece uma vitória fiscal. Não é.
O número de R$ 95 milhões só existe porque o governo excluiu das contas dois blocos de despesas que, na prática, continuam existindo e sendo pagas. O primeiro é a exclusão de R$ 10 bilhões relacionados ao plano de reestruturação dos Correios. O segundo é a exclusão de R$ 5 bilhões por investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento. Some os dois e você tem R$ 15 bilhões simplesmente retirados da contagem. Sem essas exclusões, o déficit real das estatais em 2026 é de R$ 13,577 bilhões, número que o próprio relatório admite num rodapé, mas que não aparece no título.
O governo cria exceções, exclui categorias inteiras de despesas das metas fiscais e apresenta o resultado límpido à opinião pública, enquanto o rombo verdadeiro segue crescendo. Não é coincidência que o TCU tenha apontado nesta mesma semana que as estatais não dependentes acumulam déficit de R$ 18,5 bilhões desde janeiro de 2023, e que entre 2019 e 2022 as mesmas empresas registraram superávit de R$ 17,5 bilhões.
Os Correios, o caso mais grave, tiveram o déficit projetado reduzido de R$ 8,464 bilhões para R$ 7,454 bilhões. Ainda é um rombo de R$ 7,4 bilhões numa única empresa que o TCU já classificou como em risco de insolvência, que acumulou prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025 e que suspendeeu as principais medidas de reestruturação após ameaça de greve. A diferença entre o número anterior e o atual não reflete melhora operacional: reflete reclassificação contábil.
O governo que arrecadou R$ 1,323 trilhão nos primeiros cinco meses do ano, alta real de 6,42%, e ainda assim acumulou déficit primário de R$ 56,1 bilhões em maio sozinho, agora apresenta um déficit das estatais de R$ 95 milhões — um número que só existe no mundo paralelo das exclusões orçamentárias. Na economia real, as estatais continuam no vermelho, os Correios continuam em risco de insolvência e o contribuinte continua pagando a conta.





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