Juros do Tesouro Direto despencam após primeiro turno
Entenda, em linguagem simples, como a confiança em uma política fiscal mais austera barateia a dívida pública

As taxas dos títulos prefixados do Tesouro Direto voltaram a recuar na abertura desta terça-feira (6), no segundo pregão após o primeiro turno da eleição presidencial, em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) terminou à frente do presidente Lula, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. O Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 teve a queda mais forte, de 12,90% para 12,79% ao ano em relação ao fechamento de segunda-feira (5). O Prefixado 2032 foi de 12,81% para 12,71%, e os dois renovaram as menores taxas desde que passaram a ser oferecidos. O Prefixado 2029 saiu de 12,62% para 12,55%, a menor taxa de abertura do ano.
Considerando o desempenho desde a sexta-feira (2), quando o título com vencimento em 2032 pagava 14,21% ao ano, o recuo acumulado chega a 150 pontos-base, ou seja, 1,5 ponto percentual, já que cada 100 pontos-base equivalem a 1 ponto percentual. Na segunda-feira, a queda dos papéis 2032 e 2037 na abertura havia sido a segunda maior em um único dia desde o início da série histórica do Tesouro Nacional, em 2005.
Os títulos atrelados à inflação também cederam nesta terça, com menor intensidade. O Tesouro IPCA+ 2050 passou de IPCA mais 6,59% para IPCA mais 6,51%, e o IPCA+ 2032, de IPCA mais 7,00% para IPCA mais 6,95%. Essas taxas ainda estão acima das registradas na abertura de segunda, quando o IPCA+ 2050 chegou a IPCA mais 6,32%, antes de devolver parte da queda ao longo do dia.
Para quem não acompanha o mercado financeiro, a lógica é a seguinte: ao vender um título do Tesouro, o governo está tomando dinheiro emprestado do investidor e se comprometendo a devolvê-lo com acréscimo. A taxa é justamente esse acréscimo: o preço que o governo aceita pagar pelo empréstimo. Num título prefixado, a taxa é fixada de antemão. No título IPCA+, o investidor recebe a inflação do período mais uma taxa adicional. Quanto mais o investidor confia que o governo conseguirá pagar suas dívidas, menos ele exige para emprestar. Quando a confiança diminui, ele cobra mais, para se proteger do risco de calote ou de descontrole da inflação.
É aí que entra a política fiscal, que é a forma como o governo administra suas receitas e despesas. Quando o governo gasta mais do que arrecada, precisa pegar emprestado para cobrir a diferença, e a dívida cresce. Foi o que ocorreu em todo o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Exemplificando, em 2026, o governo central acumulou déficit primário de R$ 94,9 bilhões em oito meses, a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, e as projeções do próprio mercado apontam para 86,77% em 2027. O petista chegou a declarar em entrevista que a dívida pública "não o preocupa", e anunciou, a semanas da eleição, um reajuste do Bolsa Família com custo de R$ 22,7 bilhões em 2027. Diante desse histórico, os investidores passaram a exigir juros mais altos para financiar o governo, o que ajuda a explicar por que os títulos prefixados pagavam acima de 14% na semana passada.
A queda das taxas nos últimos dias mostra uma mudança de expectativa. O plano de governo de Flávio Bolsonaro propõe corte de ao menos dez ministérios, revisão das regras fiscais e redução gradual da relação entre dívida e PIB. Ao enxergarem a possibilidade de uma gestão que contenha gastos, os investidores passam a aceitar receber menos para emprestar ao governo, porque avaliam que o risco de a dívida sair do controle diminuiu. A taxa que o Tesouro precisa pagar cai, e com ela cai o custo da dívida pública, o que significa mais dinheiro disponível para áreas essenciais e menos recursos consumidos por juros.
O efeito alcança também a vida de quem não investe em títulos públicos. Como as taxas do Tesouro servem de referência para o crédito no país, uma queda sustentada tende a abrir espaço para juros menores em financiamentos, cartões e empréstimos, justamente num momento em que a inadimplência bancária bateu 5%, recorde da série, e o endividamento das famílias está em nível inédito. O contrário também vale. No cenário de continuidade das atuais políticas, o Morgan Stanley estimou que a Selic poderia chegar a 15,5% e a dívida pública superar 100% do PIB até 2033, com queda de até 35% do Ibovespa em dólar.
É preciso lembrar que se trata de uma aposta, e não de um fato consumado. O segundo turno acontece em 25 de outubro, e o próprio comportamento dos títulos IPCA+ na segunda-feira, que devolveram parte da queda ao longo do dia, mostra que o mercado segue atento a qualquer sinal de reversão nas pesquisas. Mas a magnitude do movimento deixa claro o que os investidores estão precificando: a perspectiva de que o país troque um ciclo de gastos crescentes e dívida em alta por outro, de maior disciplina nas contas públicas.





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