Ministro de Lula diz que ajuste fiscal ‘‘não é prioridade’’
José Guimarães contraria Dario Durigan, que diz ser preciso dar uma sinalização ao mercado

O ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães (PT-CE), afirmou nesta terça-feira (27) que a discussão de um pacote de ajuste fiscal não será prioridade do governo Lula até o fim do ano. A declaração foi dada em coletiva de imprensa, na mesma data em que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse ter reafirmado ao presidente a necessidade de dar uma sinalização propositiva ao mercado.
“Esse assunto não foi discutido, e nem está sendo discutido, muito menos aqui na bancada. Essas matérias, para votar até 20 de dezembro, se nós votarmos essas três grandes pautas, já nos daremos por satisfeitos”, declarou José Guimarães. Questionado sobre a proposta apresentada por Dário Durigan, respondeu que “esse assunto não foi discutido na bancada e nem no governo”.
O ministro Dário Durigan havia dito, mais cedo, que o governo tem “várias medidas já sendo estudadas e prontas”, mas que “a gente precisa sentar com o presidente e autorizar as demais medidas”. O contraste entre os dois ministros ocorre um dia depois de uma das piores sessões da história da Bolsa. José Guimarães, ao comentar a reação dos investidores, disse que “o mercado estava apostando numa vitória eleitoral” e que o presidente, “em uma vitória histórica, desbancou a expectativa do mercado”, de modo que “o mercado troca agora de posições num dia”.
A pauta que o articulador político classifica como suficiente para o governo “se dar por satisfeito” caminha na direção oposta ao ajuste. A PEC da Segurança Pública e a PEC da tarifa zero ampliam despesas ou criam novas obrigações para o Estado, e a MP das bets tem caráter regulatório e arrecadatório, sem alterar a estrutura das contas. Em outras palavras, o governo propõe usar as semanas que o mercado considera decisivas para votar medidas que não cortam gastos e, no caso do transporte gratuito, devem aumentá-los.
O recado chega no momento em que investidores esperam sinais de compromisso fiscal. O Morgan Stanley avalia que, se o novo governo não sinalizar compromisso com o ajuste nas próximas semanas, o dólar pode chegar a R$ 6,00 e os juros futuros de 2029, a 16,5%, com o mercado passando a precificar alta da Selic. O Citi e a BCA Research rebaixaram os ativos brasileiros por entender que a vitória de Lula afasta a perspectiva de um governo ortodoxo. Na segunda-feira, a Bolsa perdeu R$ 734 bilhões em valor de mercado, o Ibovespa caiu 13,88%, o dólar subiu mais de 8%, a R$ 5,40, e o CDS de cinco anos saltou 26%, a 151,7 pontos.
Os números de fundo não mudaram. O governo central acumula déficit primário de R$ 94,9 bilhões em oito meses de 2026, a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB, com projeção de 87% em 2027, e o Prisma Fiscal já trabalha com rombo de R$ 53 bilhões neste ano, contra meta de superávit de R$ 34,3 bilhões.





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