top of page

Ouro cai 18% em meio a tensão no Oriente Médio e alta nos juros americanos


O ouro registrou sua maior queda em duas semanas desde 1983. Saiu de US$ 5.589 por onça em 28 de janeiro para US$ 4.551 em 19 de março, perda de 18,5%. Isso enquanto bombas caem no Oriente Médio, o petróleo passa de US$ 100 por barril e o Estreito de Ormuz fica bloqueado pela Guarda Revolucionária iraniana.


O que explica a queda


O Federal Reserve manteve as taxas de juros estáveis em 18 de março, mas elevou a previsão de inflação para 2026 para 2,7%. Jerome Powell apontou o impacto do petróleo acima de US$ 100, impulsionado pela guerra no Irã, como razão para postura mais dura. Resultado: o rendimento do título do Tesouro de 10 anos subiu para 4,25%, o dólar se fortaleceu e o ouro ficou mais caro para quem usa outras moedas.


Investidores comuns colocaram mais de US$ 70 bilhões em fundos de ouro (ETFs) em 2025 e início de 2026. Muitos optaram por produtos alavancados, que dobram (2x) ou triplicam (3x) o movimento diário do preço do ouro. São como apostas ampliadas: se o ouro sobe 1%, o fundo 2x ganha 2%; se cai 1%, perde 2%. Esses fundos ajustam posições todo dia. Quando o ouro despenca, vendem automaticamente para se equilibrar, o que acelera a queda. O metal subiu de US$ 5.296 para US$ 5.423 com a notícia de Ormuz, mas reverteu 6% no mesmo dia por essas vendas forçadas.


Países do Golfo, como Arábia Saudita (323 toneladas de ouro), Catar (115 toneladas) e Kuwait (79 toneladas), enfrentam problema similar ao de 1983. Estoques cheios e produção cortada bloqueiam receitas de petróleo. Vendem ouro para obter dólares e defender pégas cambiais – sistema em que sua moeda local tem valor fixo ao dólar, para evitar desvalorizações bruscas, conforme dados do Fundo Monetário Internacional.


Algoritmos de grandes fundos vendem quando o índice do dólar (DXY) passa de 99 e os juros de 10 anos superam 4%, sem olhar para guerras.


Análise


O ouro não rende juros ou dividendos, só preserva valor ao longo do tempo. Com Treasuries pagando 4,25% sem risco de calote (garantidos pelo governo americano), o custo de oportunidade fica alto: por que guardar ouro parado se títulos rendem isso? A guerra piorou tudo: óleo alto gerou medo de inflação, Fed endureceu, juros subiram e dólar valorizou.


No curto prazo, negociações no mercado futuro de ouro, ou "papel", prevalecem. Fundos alavancados vendem posições para reduzir dívidas, e governos do Golfo liquidam reservas para obter dólares imediatos. O ouro físico, porém, mantém firmeza. Prêmios de venda elevados sinalizam procura por metal real. Bancos centrais asiáticos seguem comprando, e depósitos em Comex, na Nova York, e na Bolsa de Xangai registram saídas aceleradas, conforme o World Gold Council.


A dívida pública americana, em US$ 36,2 trilhões, gera juros anuais de US$ 1,03 trilhão, valor superior ao orçamento de defesa pela primeira vez, segundo o Tesouro Nacional dos Estados Unidos. O refinanciamento de US$ 9,2 trilhões em 2026 eleva custos em US$ 391 bilhões a 4,25%, comparado a 2%. Sem redução de juros, essa carga torna-se inviável, pavimentando o caminho para compras de títulos pelo Federal Reserve ou limite artificial de rendimentos até 2027.


Bancos como JP Morgan projetam US$ 6.300 por onça ao fim de 2026. O Deutsche Bank mantém estimativa de US$ 6.000. Para eles, a queda recente é um ajuste passageiro, dentro de uma tendência de alta de base sólida. Essa visão se apoia em compras contínuas de bancos centrais, com 863 toneladas por ano, conforme o World Gold Council, e no movimento global para diversificar reservas além do dólar.


O mercado de papel registrou quedas fortes. O ouro físico, por outro lado, manteve demanda estável. Quando o índice do dólar (DXY) recuar abaixo de 97 e os rendimentos dos títulos de 10 anos caírem para menos de 3,5%, a pressão sobre os preços diminui. Em períodos de dívida elevada, o ouro se destaca por não depender de emissores ou contrapartes. Até quando o dólar aguentará juros altos com déficits fiscais em expansão, conforme dados do Tesouro Nacional dos EUA?



Comentários


bottom of page