Ouro de tolos
- Carlos Dias

- há 39 minutos
- 4 min de leitura

O Fundo Monetário Internacional revisou para cima a projeção de crescimento do Brasil em 2026, de 1,9% para 2,4%, enquanto reduziu a estimativa de expansão da economia mundial de 3,2% para 3%. O Bank of America cunhou a expressão “momento de ouro” para descrever o cenário brasileiro. A coincidência temporal desse diagnóstico com a maior penalização tarifária já imposta pelos Estados Unidos a um parceiro comercial revela uma contradição. A economia que supostamente descola do resto do mundo é, simultaneamente, a que sofre o choque externo mais severo entre todos os seus pares.
A reformulação do modelo tarifário americano elevou a alíquota efetiva sobre produtos brasileiros de 11% para 17,7%, o maior aumento entre todos os parceiros comerciais de Washington. A sobreposição de 25% sob a Seção 301 com 12,5% por alegação de trabalho forçado cria uma carga tributária máxima de 37,5% para setores específicos. Enquanto isso, França, Alemanha, Reino Unido, Bélgica, Espanha e Itália obtiveram reduções. Johannes Fritz, diretor-executivo da Global Trade Alert, sintetizou o movimento com clareza: as tarifas sobem para Brasil e China, e caem para os europeus. A diferença não se explica por peso comercial ou volume de exportações. Explica-se por conduta diplomática.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi explícito ao anunciar o pacote: “Lula colocou seu próprio ego à frente do bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso.” Essa declaração extrapola a retórica diplomática convencional. É o diagnóstico de que o governo brasileiro teve oportunidade de negociar e optou por não o fazer de boa-fé. A aproximação sistemática com Pequim em detrimento do diálogo com Washington, a retórica antiamericana em fóruns multilaterais e a recusa em negociar quando a Suprema Corte americana derrubou as tarifas amplas de Trump em abril de 2025 compuseram o terreno da penalização. Países europeus negociaram e saíram beneficiados com reduções de até 1,5 ponto percentual. O Brasil não negociou e sofreu aumento de 6,7 pontos.
A análise econômica dessa conjuntura exige distinguir dois fenômenos que operam em direções opostas. De um lado, o ciclo de commodities e a expansão monetária sustentam um crescimento de aparência sólida. De outro, a perda de competitividade no mercado americano comprime receita de exportação, reduz a capacidade de importar bens de capital e pressiona a moeda nacional. O efeito líquido é empobrecimento relativo. Tarifas são impostos sobre o consumo e distorcem a estrutura de produção. O dano propaga-se pela cadeia de fornecedores, pelo emprego industrial e pela balança de pagamentos. O produtor brasileiro enfrenta três caminhos igualmente desfavoráveis: absorver a diferença e comprimir margens, repassar ao comprador americano e perder participação de mercado, ou redirecionar exportações para destinos menos rentáveis.
A pergunta essencial é se o crescimento projetado pelo FMI reflete ganhos reais de produtividade e reformas estruturais, ou apenas o efeito de uma commodity boom temporária sustentada por choques externos. A resposta é direta: crescimento baseado em estímulos artificiais e expansão monetária tende a ser insustentável a longo prazo, independentemente do otimismo de relatórios internacionais. Quando se soma a esse diagnóstico o choque tarifário de 37,5% sobre setores exportadores, o quadro revela uma economia que cresce no papel e se contrai na prática. O capital produtivo foge de jurisdições onde a diplomacia comercial é instável. A tarifa sinaliza aos investidores estrangeiros que o Brasil é um parceiro de alto risco político.
Há um componente estrutural nessa equação que transcende a conjuntura tarifária. O governo brasileiro tratou a política externa como extensão de projeto de poder interno, não como instrumento de defesa do interesse nacional. A aproximação com a China não foi uma escolha estratégica baseada em cálculo de custos e benefícios comerciais. Foi uma escolha ideológica, alinhada com o viés antiocidental do núcleo duro do governo. O Itamaraty é instrumentalizado para produzir imagens e declarações que servem ao discurso de poder, enquanto o custo real é transferido para o contribuinte e o empresário. O exportador de manufaturados no Sul, o produtor agrícola do Centro-Oeste e o industrial de São Paulo não votaram na aproximação com Pequim. São eles que perdem contratos, margens e postos de trabalho.
Para o mercado financeiro, o efeito se manifesta em pressão sobre a balança comercial, possível deterioração do real frente ao dólar e redução de expectativas de crescimento para setores exportadores. O investidor precisa precificar o risco de que o Brasil permaneça na lista de países penalizados por tempo indeterminado. A reversão depende de negociação diplomática séria, o que parece improvável no curto prazo dado o desgaste acumulado. Para o cidadão, o efeito indireto chega pela via do emprego e da renda. Setores exportadores compram insumos, contratam serviços e geram postos de trabalho. Ao perderem competitividade no mercado americano, a retração se propaga pela economia nacional.
O Brasil tornou-se o país mais prejudicado pela reformulação tarifária americana não por falta de opções, mas por uma sequência de escolhas políticas que subordinaram o interesse comercial a conveniências ideológicas. O aparente “momento de ouro” apontado por relatórios internacionais esbarra na realidade de um país que penaliza seu próprio setor produtivo por decisões tomadas no campo da veleidade política. A tarifa efetiva de 17,7% e a carga máxima de 37,5% são o resultado mensurável de uma diplomacia que confundiu protagonismo com provocação e alinhamento estratégico com submissão voluntária a potências adversárias de Washington. O custo dessa escolha não é pago por quem a tomou. É pago pelo produtor, pelo trabalhador e pelo investidor brasileiro.




Comentários