A inflação continua caindo?
- Carlos Dias

- 10 de dez. de 2025
- 5 min de leitura

A inflação continua caindo? Essa é a pergunta que paira sobre as projeções mais recentes do Boletim Focus, o relatório semanal do Banco Central que compila as expectativas de mais de cem instituições financeiras sobre a economia brasileira. Na edição de 9 de dezembro, o mercado revisou para baixo as estimativas de inflação, projetando 4,40% para 2025 e 4,16% para 2026, enquanto elevou ligeiramente as expectativas de crescimento do PIB para 2,25% em 2025 e 1,80% em 2026. A taxa Selic permanece ancorada em 15% ao ano para o fim de 2025, com uma redução gradual para 12,25% em 2026, e o dólar é estimado em R$ 5,40 no encerramento de 2025. À primeira vista, esses números evocam um cenário de estabilização, com a desinflação ganhando terreno e o otimismo se instalando entre os analistas. No entanto, uma avaliação técnica mais rigorosa revela camadas de fragilidade subjacentes, onde o aparente equilíbrio mascara riscos fiscais persistentes e dependências externas que comprometem a solidez de longo prazo da economia nacional.
A desinflação, embora bem-vinda, opera em uma corda bamba. As projeções indicam uma quarta queda consecutiva para 2025, posicionando a inflação abaixo do teto da meta de 4,5%, um marco simbólico que o mercado celebra como indício de controle. Mas esses patamares – 4,40% e 4,16% – ainda orbitam perigosamente perto do limite superior, sugerindo que o processo é mais conjuntural do que estrutural. Fatores globais, como a moderação nos preços de commodities agrícolas e minerais, e a apreciação do dólar em mercados internacionais, exercem uma pressão descendente sobre os índices brasileiros, aliviando temporariamente os custos de importação e ancorando expectativas. Contudo, essa dinâmica ignora as raízes internas do problema: déficits fiscais recorrentes que incharam a dívida pública para além de níveis toleráveis, superando o intervalo prudente de 60% a 75% em relação ao PIB, e gastos estatais que injetam distorções na oferta monetária sem gerar retornos produtivos equivalentes. O Banco Central, compelido a sustentar uma Selic elevada em 15%, responde a essas pressões com uma restrição monetária que, se eficaz no curto prazo, impõe ônus desproporcionais ao setor privado, elevando o custo do capital e freando a formação de investimentos em infraestrutura e inovação.
Essa política de juros altos, projetada para perdurar até 2026 com uma Selic de 12,25%, reflete uma desconfiança profunda na governança fiscal do país. O mercado, ao manter essas expectativas, sinaliza que a autonomia do Banco Central permanece sob ameaça de interferências políticas, o que erode a credibilidade das metas inflacionárias e perpetua um ciclo de volatilidade. Sem uma contenção rigorosa dos dispêndios públicos – incluindo a eliminação de subsídios ineficientes e transferências que beneficiam interesses corporativos em detrimento da alocação eficiente de recursos –, a desinflação corre o risco de reverter ante choques internos, como expansões orçamentárias ligadas a ciclos eleitorais ou novas intervenções setoriais. A projeção cambial de R$ 5,40 para o fim de 2025 agrava esse quadro, ilustrando uma depreciação crônica do real impulsionada por fluxos de capital volúveis e pela percepção de instabilidade institucional. Essa desvalorização, embora possa estimular exportações de commodities no curto prazo, eleva os custos de insumos importados, pressionando margens empresariais e alimentando espirais inflacionárias potenciais, especialmente em um balanço de pagamentos já fragilizado por déficits em conta corrente.
No cerne dessa análise reside o crescimento do PIB, cuja expansão modesta para 2,25% em 2025 e 1,80% em 2026 soa como um avanço tímido em meio a desafios imensos. Esses números, ligeiramente acima das estimativas prévias, dependem de uma recuperação do consumo doméstico e de um ambiente global benigno, mas falham em confrontar o desemprego endêmico e a baixa produtividade que definem a estrutura produtiva brasileira. O otimismo implícito no Boletim Focus parece ancorado em estímulos estatais contínuos – programas de transferência e incentivos fiscais seletivos –, que, longe de fomentar eficiência, distorcem incentivos econômicos e reforçam o patrimonialismo arraigado na máquina pública. A corrupção político-administrativa, combinada com a captura regulatória por grupos de interesse, drena recursos que poderiam ser direcionados a investimentos em capital humano e tecnológico, perpetuando um modelo de crescimento dependente de ciclos exógenos de commodities, como os preços voláteis do minério de ferro e da soja. Nesse contexto, a dívida pública elevada não só limita a manobra fiscal, mas também desestimula o setor privado, que hesita em alocar capitais em um ambiente de incertezas regulatórias e tributárias excessivas.
A exploração racional de recursos naturais, notadamente na Amazônia, surge como uma via estratégica subestimada nessas projeções. Essa região, rica em biodiversidade e minerais, poderia ser alavancada para diversificar a matriz econômica e fortalecer a capacidade defensiva nacional, gerando receitas fiscais sustentáveis e promovendo parcerias internacionais baseadas em eficiência e transparência. No entanto, o Boletim Focus, ao focar em um crescimento modesto, ignora o potencial de privatizações e desregulamentações que liberariam forças produtivas adormecidas, permitindo uma expansão mais vigorosa e autônoma. Sem uma descentralização efetiva do poder estatal – transferindo competências para entes subnacionais e reduzindo o inchaço burocrático –, o Brasil arrisca uma estagnação prolongada, onde o PIB avança aos trancos e barrancos, insuficiente para elevar padrões de vida ou mitigar desigualdades regionais enraizadas no centralismo excessivo.
Em síntese, o Boletim Focus delineia uma narrativa de recuperação gradual, mas essa visão otimista superficial oculta vulnerabilidades crônicas que demandam ação imediata. A desinflação frágil, o crescimento anêmico e a volatilidade em juros e câmbio apontam para a necessidade imperiosa de reformas que priorizem a estabilidade monetária independente e a minimização do intervencionismo estatal. Uma guinada em direção à eficiência de mercado, com privatizações amplas, contenção fiscal rigorosa e proteção à autonomia do Banco Central, resgataria a liberdade individual como motor de prosperidade. Do contrário, as projeções atuais podem se dissipar como ilusões conjunturais, deixando o país exposto a reversões que comprometem não só o equilíbrio macroeconômico, mas o tecido social e estratégico da nação. Uma abordagem técnica e proativa, ancorada em princípios de responsabilidade fiscal e inovação privada, é o caminho para transformar expectativas em realizações duradouras.
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