Ata do Copom reforça necessidade de cautela na condução dos juros, mesmo com desaceleração da atividade
Documento cita desancoragem das expectativas de inflação em todos os horizontes

A ata da reunião de setembro do Comitê de Política Monetária, divulgada nesta terça-feira (22), reforçou a mensagem já transmitida no comunicado da semana passada de que o Banco Central vê necessidade de manter condução cautelosa da política monetária, apesar dos sinais de desaceleração da atividade econômica. A última reunião do Copom havia terminado com corte da Selic de 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano — quinta redução consecutiva —, enquanto o Boletim Focus divulgada na véspera já mostrava o mercado projetando a taxa em 13,50% ao final do ano.
O documento reafirma que o cenário atual ainda demanda "serenidade e cautela", repetindo que o Comitê seguirá acompanhando a evolução dos dados para manter o grau de restrição monetária necessário à convergência da inflação à meta. Segundo a ata, as evidências de transmissão da política monetária contracionista para a economia têm se acumulado gradualmente, com a atividade doméstica seguindo trajetória de moderação em linha com o esperado pelo colegiado. Ainda assim, o BC ressaltou que a inflação continua pressionada pela demanda, o que exige manutenção da política restritiva, além de destacar que choques de oferta seguem influenciando de forma relevante a trajetória inflacionária — o Comitê afirma que não reagirá aos efeitos primários desses choques, mas monitorará atentamente eventuais efeitos de segunda ordem.
A preocupação com as expectativas de inflação, que permanecem acima da meta em todos os horizontes analisados, também foi reforçada no documento. O Comitê voltou a destacar o processo de desancoragem das expectativas de longo prazo, afirmando que, num ambiente como o atual, é necessária restrição monetária maior e por mais tempo do que em outras circunstâncias. Segundo o BC, perseverança, firmeza e serenidade na condução da política monetária serão fundamentais para a reancoragem dessas expectativas — trecho que sinaliza resistência do Comitê a acelerar o ritmo de cortes mesmo diante de dados mais favoráveis no curto prazo.
Embora tenha reconhecido que as leituras mais recentes apontam queda da inflação ao consumidor, o Copom observou que os preços ao produtor voltaram a acelerar nos indicadores mais recentes, tanto em bens intermediários quanto em bens de consumo — um sinal de alerta que pode se traduzir em pressão inflacionária futura repassada ao consumidor final.
No campo fiscal, a ata manteve o tom já observado em encontros anteriores, enfatizando a importância da coordenação entre políticas monetária e fiscal. O BC afirmou que uma política fiscal contracíclica, capaz de reduzir o prêmio de risco, favorece a convergência da inflação à meta. Por outro lado, alertou que eventual enfraquecimento das reformas estruturais, perda de disciplina fiscal, expansão do crédito direcionado e incertezas quanto à trajetória da dívida pública podem elevar a própria taxa de juros neutra da economia — um recado direto num momento em que o déficit primário segue persistente e o governo acaba de anunciar reajuste bilionário do Bolsa Família a semanas do primeiro turno eleitoral.
O documento também destacou que o mercado de crédito segue indicando desaceleração do crescimento econômico. Segundo o BC, o crédito bancário com recursos livres é consistente com esse cenário de moderação, embora o crédito direcionado continue avançando, tanto para pessoas físicas — especialmente no segmento imobiliário — quanto para empresas, apoiado por operações com fundos garantidores.
O Copom afirmou que continuará monitorando os efeitos das medidas de estímulo à demanda, a evolução dos choques de oferta e as mudanças no mercado de trabalho para calibrar os próximos passos da política monetária. O texto reforça a avaliação de que a economia brasileira está desacelerando, mas deixa claro que o combate à inflação e a reancoragem das expectativas seguem como prioridades centrais da autoridade monetária, mesmo diante da pressão política que um ano eleitoral costuma exercer sobre expectativas de afrouxamento mais rápido dos juros.
Faça o download a ata do Copom abaixo:





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