Sem conversão, não há Brasil

A presença de católicos na vida pública não é um favor que a Igreja concede ao mundo, nem um ornamento para os períodos eleitorais. Ela nasce do batismo e da compreensão cristã sobre o homem, a sociedade e o bem comum. Uma pastoral de católicos na política precisa partir desse fundamento, sob pena de reduzir a fé a um rótulo e a política a um balcão de interesses. Quando isso acontece, a Igreja perde a voz profética e o fiel perde o sentido de sua missão.
O ponto de partida é a pessoa humana. O Catecismo da Igreja Católica ensina que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (CIC 1700). Essa afirmação define o critério último de toda ação social e política. Se cada pessoa carrega uma dignidade anterior a qualquer lei, contrato ou conveniência, o Estado não cria direitos. Ele os reconhece e tem o dever de protegê-los. Daí decorrem consequências que não admitem negociação. A vida humana é inviolável desde a concepção até a morte natural, como ensina São João Paulo II em Evangelium Vitae. A família é anterior ao Estado e possui direitos próprios, que nenhum governo pode suprimir por decreto. O trabalho expressa a dignidade do homem e não se reduz a mercadoria. A liberdade religiosa e a liberdade de consciência não são concessões revogáveis do poder, mas direitos que decorrem da própria natureza da pessoa, como afirma o Concílio Vaticano II na Dignitatis Humanae. Quem entra na política sem ter assimilado esse ponto de partida tende a administrar conveniências em vez de defender pessoas.
A missão do leigo no mundo também precisa ser compreendida com precisão. A Igreja ensina que os fiéis leigos são chamados a santificar o mundo a partir de dentro, exercendo as responsabilidades temporais com espírito evangélico. A Gaudium et Spes afirma que a Igreja não está ligada a nenhum sistema político, mas reconhece que a política, quando exercida com retidão, é uma das formas mais altas de caridade. A atuação do cristão no espaço público, portanto, não é intromissão indevida. É cumprimento de um dever. Isso não significa que a fé deva ser convertida na posição oficial de um partido ou de um grupo ideológico. A doutrina social deixa à consciência formada a escolha dos meios e das soluções técnicas. Fixa, porém, princípios que não se negociam: a dignidade humana, o bem comum, a subsidiariedade, a solidariedade e a destinação universal dos bens. Quem atua segundo esses princípios distingue o que pertence à prudência, que admite diferentes caminhos, do que pertence à fé e à moral, que não admite recuo.
É nesse ponto que se impõe uma advertência necessária. Parte relevante das comissões e dos movimentos ligados à CNBB tem caminhado em direção oposta a essa ordem. Em muitos de seus pronunciamentos, a leitura da realidade social é feita por categorias de luta de classes, que substituem a pessoa pelo grupo e a conversão pela disputa. A Congregação para a Doutrina da Fé já advertiu, nas instruções Libertatis Nuntius (1984) e Libertatis Conscientia (1986), contra o uso de análises marxistas que esvaziam o Evangelho de sua dimensão transcendente. Essa advertência permanece atual. Soluções estatizantes e de expansão da máquina pública são apresentadas como exigência evangélica, enquanto a subsidiariedade, a propriedade e a iniciativa das famílias e das comunidades são tratadas com suspeita. Em alguns casos, a defesa da vida nascitura é relativizada diante de outras pautas, o que contradiz a própria clareza do Magistério. O resultado é um desvio que, objetivamente, distorce o ensinamento da Igreja e confunde os fiéis sobre o que significa ser católico na política.
O Catecismo também ensina que os cidadãos devem, na medida do possível, tomar parte ativa na vida pública (CIC 1915). Essa participação não é facultativa para quem tem talento, formação e disposição para servir. Quando católicos íntegros se afastam da política por desgosto ou comodidade, o espaço vazio é ocupado por quem não tem escrúpulos. A omissão, nesse caso, não representa neutralidade. Representa abdicação. Por isso a Igreja precisa de homens e mulheres autênticos, vocacionados a esse serviço, que compreendam que a política é uma forma exigente de caridade e que o poder é, antes de tudo, um encargo.
Esse chamado exige um perfil definido. O político católico precisa de formação doutrinária sólida, de oração regular, de vida sacramental e, sobretudo, de coerência entre o que professa e o que vota. Precisa de humildade para reconhecer limites e de coragem para recusar pressões, mesmo quando a recusa custa votos, alianças ou posições. A autenticidade não se mede pela frequência à missa em dias de campanha, nem pelo número de citações eclesiais em discursos. Mede-se pela constância com que se defende a vida, a família, a justiça e a liberdade quando isso não traz benefício imediato.
Há também políticos que fazem da identidade católica uma marca. Citam documentos da Igreja, frequentam eventos religiosos e se apresentam como defensores dos valores cristãos, mas suas ações pouco ou nada refletem essa fé. Aprovam orçamentos que ampliam a máquina estatal sem critério de justiça, toleram a corrupção de aliados quando ela lhes é útil e, diante de projetos contrários à vida, preferem o silêncio conveniente. Nesses casos, a linguagem religiosa vira ornamento, e o ornamento serve apenas para vestir interesses que nada têm de cristãos.
Essa postura causa um dano duplo. Ao público, transmite a ideia de que a doutrina da Igreja é um discurso vazio, útil apenas para conquistar eleitores. À própria comunidade eclesial, enfraquece o testemunho e alimenta o cinismo de quem observa de fora. A Escritura é clara: pelos frutos se conhece a árvore (Mt 7,20). Um católico na vida pública deve ser avaliado não pelo vocabulário que emprega, mas pela eficácia com que protege os mais fracos e pela integridade com que exerce o poder. Quem não produz esses frutos não deve ser apresentado como testemunha da fé.
A eficácia, aliás, não deve ser confundida com pragmatismo. O político católico pode e deve buscar resultados, mas não ao preço dos fins. Um projeto que destrói princípios em nome de uma vitória parcial não é ganho para a fé nem para a nação. A história brasileira oferece exemplos de governos que prometeram proteger a família e os pobres e, ao final, fortaleceram privilégios, ampliaram a dependência e corroeram as instituições. A distância entre o discurso e a prática é o que separa a vocação do oportunismo.
Há ainda observações que completam essa base. A subsidiariedade deveria orientar toda pastoral política, pois o Estado não deve fazer aquilo que a família, a comunidade local e as associações intermediárias podem realizar por si mesmas. A centralização excessiva costuma produzir dependência, clientelismo e corrupção, males que a doutrina social condena com clareza. A justiça econômica, por sua vez, exige respeito à iniciativa, à propriedade e ao trabalho. A Igreja não defende a miséria como virtude, nem o enriquecimento sem ética. Defende que a riqueza seja gerada com liberdade e distribuída com justiça, sem que o Estado se converta em árbitro de privilégios. Quando políticos católicos apoiam a expansão de benefícios e de monopólios estatais em nome dos pobres, contradizem a própria doutrina que dizem seguir, pois mantêm os pobres dependentes e os privilegiados protegidos.
A formação, por fim, é condição indispensável. Sem estudo da doutrina social, da filosofia política e da história das instituições, o católico na política torna-se refém das modas e dos discursos de ocasião. Uma pastoral séria deve investir em formação continuada, em debates públicos bem fundamentados e no apoio a quem se dispõe a servir. O combate à corrupção e ao patrimonialismo, igualmente, é exigência moral e não tema técnico reservado a especialistas. Quem usa o cargo para benefício próprio ou de grupos fere o bem comum e trai a confiança de quem o elegeu.
O Brasil não será curado por novas leis, nem por novos partidos, nem por novas alianças. Será curado quando a Igreja voltar a ser Igreja, anunciando Cristo com clareza e sem se dissolver nas agendas do tempo, e quando os católicos voltarem a ser católicos, vivendo a fé como linha de conduta na família, no trabalho e no exercício do poder. Enquanto a fé for usada como ornamento e a doutrina for substituída por ideologia, a vida pública continuará refém de conveniências. A política não será salva por discursos, mas por homens e mulheres que façam da fé uma razão de viver e de servir. Essa é a vocação que a Igreja propõe, e é a que o nosso tempo mais precisa.





Comentários