A meta virou apenas referência
- Carlos Dias

- há 3 horas
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O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano, quarto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual. A decisão foi unânime e estava em linha com o esperado pelo mercado. Essa coincidência entre o que o mercado esperava e o que a autoridade monetária fez é, ela própria, um dado analítico que requer consideração mais rigorosa.
A projeção do Copom para o IPCA em 2026 foi revista de 5,2% para 5,1%. A meta tem teto de 4,5%. A inflação projetada permanece 600 pontos-base acima do teto. Mesmo assim, o colegiado optou por afrouxar a política monetária. O comunicado reconhece que os riscos para a inflação permanecem mais elevados que o usual, com assimetria altista. A instituição admite, portanto, maior probabilidade de a inflação subir do que de cair. Cortar juros nesse ambiente coloca em questão o compromisso com a estabilidade de preços como objetivo primário do Banco Central.
O comunicado também admite que monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos. Expectativas desancoradas significam que os agentes econômicos perderam, em alguma medida, a confiança na capacidade da autoridade monetária de cumprir a meta. Cortar juros nesse ambiente não confirma apenas essa desancoragem, mas a potencializa. Quando o sinal emitido é de complacência com inflação acima da meta, o efeito sobre as expectativas de longo prazo é estrutural, não conjuntural.
Uma mudança técnica do comunicado merece registro: o horizonte relevante da política monetária foi deslocado do quarto trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028. Posterga-se o ponto de convergência da inflação à meta, ganhando mais um trimestre para que a projeção se aproxime do centro. A manobra comunica algo perturbador: a convergência foi empurrada para um horizonte cada vez mais distante. Se a instituição precisa estender o prazo para que a matemática feche, está reconhecendo que a trajetória de desinflação perdeu força.
O Copom afirma que acompanha como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros. A frase é comedida, mas carrega peso considerável. A trajetória fiscal brasileira é o fator de maior pressão sobre a estrutura de juros e o câmbio. Dívida pública em patamar elevado, crescimento real da despesa primária e ausência de arcabouço fiscal credível comprometem a eficácia da política monetária. A pergunta é direta: até que ponto a decisão reflete avaliação técnica autônoma da inflação, e até que ponto responde à pressão implícita do arcabouço fiscal sobre o custo de carregamento da dívida?
O ambiente externo adiciona pressão. O comunicado menciona a indefinição dos conflitos no Oriente Médio e a incerteza sobre a política monetária de economias avançadas. Entre os riscos de alta listados está a possibilidade de câmbio persistentemente mais depreciado. Reduzir o diferencial de juros tende a enfraquecer a moeda doméstica. O Copom reconhece esse risco na formula teórica, mas age na direção oposta à sugerida pela própria análise de riscos.
A atividade é descrita como em moderação gradual, mas em patamar resiliente, com mercado de trabalho aquecido. Esses adjetivos não descrevem uma economia que precisa de estímulo. Atividade resiliente com emprego aquecido é economia operando próxima ou acima do produto potencial. Cortar juros adiciona estímulo onde não há folga. O comunicado afirma ainda que a decisão implica suavização das flutuações da atividade e fomento do pleno emprego. A inclusão revela inclinação ao mandato duplo, no estilo do Federal Reserve. Para uma economia emergente com histórico inflacionário como a brasileira, o mandato duplo é um luxo perigoso. Quando estabilidade de preços e pleno emprego entram em conflito, quase sempre a inflação é sacrificada em nome do emprego.
A unanimidade em cenário de assimetria altista e inflação acima do teto sugere processo deliberativo mais alinhado à preservação de uma narrativa institucional do que à avaliação crítica dos dados. A expressão “ciclo de calibração” é escolha semântica que suaviza a percepção do que está sendo feito. Calibração sugere ajuste fino. Redução de juros com inflação acima da meta sugere acomodação. A diferença entre os dois termos é a diferença entre a narrativa e a realidade.
Para quem decide sobre renda, consumo e investimento, a lição é clara: juros em queda não significam inflação controlada. A desancoragem de expectativas, uma vez instalada, é lenta e custosa para reverter. A prudência não está em acompanhar o ritmo dos cortes, mas em antecipar os efeitos que esses cortes produzirão quando os riscos altistas, hoje reconhecidos no comunicado, se manifestarem na realidade dos preços.




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