Estagnação precificada
- Carlos Dias

- há 2 horas
- 3 min de leitura

As expectativas do mercado para 2026 e 2027, registradas no Boletim Focus, não são um simples conjunto de números. Elas formam um diagnóstico implícito sobre a qualidade do ambiente econômico brasileiro, sobretudo no que diz respeito à previsibilidade, ao custo do capital e à capacidade do país de sustentar investimento produtivo. Quando a mediana aponta IPCA de 3,95% em 2026 e 3,80% em 2027, Selic de 12,25% e 10,50%, câmbio em R$ 5,50 nos dois anos e PIB de 1,80% em ambos, o recado é duro: o Brasil caminha para uma estagnação prolongada, com risco elevado e horizonte encurtado para quem precisa tomar decisões de longo prazo.
Não se trata apenas de inflação “controlada”. Trata-se de uma inflação que permanece alta o bastante para manter a economia em modo defensivo. Um IPCA perto de 4% não é compatível com normalidade monetária em um país que necessita recuperar confiança e baratear o capital. A inflação persistente deteriora o cálculo econômico, desloca decisões para a proteção patrimonial e reforça reajustes preventivos. Em vez de sinalizar um ambiente de preços confiável, esse patamar sugere um país preso à memória de choques e à prática de precificar incerteza. Quando isso se torna rotina, o resultado não é só perda de poder de compra, mas uma erosão silenciosa da disposição de investir.
A Selic projetada expõe o outro lado do problema: o custo do dinheiro, no Brasil, permanece mais próximo de uma taxa de sobrevivência do que de uma taxa voltada ao desenvolvimento. Mesmo recuando de 12,25% para 10,50%, a taxa continua em nível restritivo, preservando um juro real elevado e travando o crédito de longo prazo. Isso seleciona projetos, mas seleciona mal. Favorece estruturas já consolidadas, com acesso privilegiado a financiamento ou repasse de custos, e penaliza o empreendedor produtivo que depende de prazo, previsibilidade e estabilidade regulatória. O país, assim, não premia produtividade. Premia posição defensiva, intermediação e ganhos de arbitragem.
O câmbio em R$ 5,50 em 2026 e R$ 5,50 em 2027 deve ser lido como termômetro de confiança. Não é apenas o preço do dólar. É um indicador de que o mercado não espera melhora relevante do fundamento que sustenta a moeda. Um câmbio alto, quando persistente, encarece bens de capital, insumos e tecnologia e eleva o custo de modernização. Mesmo em setores competitivos, a incerteza cambial e a necessidade de proteção financeira encurtam o planejamento. O país termina gastando energia e dinheiro para se proteger, em vez de direcionar recursos para ampliar produtividade e capacidade exportadora com maior valor agregado.
Nesse quadro, o PIB de 1,80% em 2026 e 1,80% em 2027 é o dado mais revelador, porque consolida a ideia de normalização do baixo crescimento. Crescer abaixo de 2% por dois anos consecutivos, com juros de dois dígitos e câmbio elevado, não é sinal de ajuste saudável. É sinal de paralisia institucional e de arranjos que sabotam o investimento. É um país que se acostuma a operar com baixa formação de capital, com baixa expansão do emprego de qualidade e com fraca incorporação de tecnologia. O resultado é um padrão de empobrecimento relativo, em que o Brasil perde posição mesmo quando o mundo não está em crise aberta.
O ponto central é a previsibilidade. O mercado está precificando que, em 2026 e 2027, o Brasil não entregará um conjunto de regras confiável, estável e repetível o suficiente para reduzir o prêmio de risco. Sem previsibilidade, juros não caem de forma consistente, o câmbio não melhora com base em confiança e o crescimento não se sustenta. E quando a economia passa a viver sob esse regime, a lógica do investimento muda: as decisões são tomadas como se o país estivesse sempre à beira de uma mudança abrupta de rota, de uma surpresa fiscal, de uma intervenção indireta, de um aumento de carga tributária ou de uma distorção regulatória.
Essas projeções, portanto, não apontam para um ciclo de prosperidade, mas para um regime de estagnação com aparência de estabilidade. Uma estabilidade ruim, cara e frágil, em que o Estado custa demais, entrega pouco e impõe ao setor privado o ônus de operar em ambiente de risco elevado. O Brasil, sob essa expectativa, não avança porque não consegue se comprometer com limites, com disciplina e com instituições que permitam ao cidadão e à empresa planejar sem medo. E, sem esse chão firme, o país não cresce; apenas se move, lentamente, dentro de uma economia que aprendeu a sobreviver, mas desaprendeu a se desenvolver.




Comentários